dreamz

, Jin Angdoo, 2018
Tango, Zbigniew Rybczynski, 1981
Greenberg, Noah Baumbach, 2010

um assassino espreita outro assassino

Um país agora este imenso aterro
teve alguma vez colinas e montados
onde o olhar demorava, adormecia
e seguia uma alegria viandante?
Ou gente que chegasse a qualquer mar
de que não quisesse logo fugir?
Só o pastoril decrépito o suspirava.

Teve o que todos tinham, em quantidade escassa,
até cobrir-se de desterro e de ilegais
e em pano de fundo esse lagar
de suicidas e débitos e primeiras segundas gerações.
A farpa de aceitação de quem consome
o sem destino da consciência.
Um país; tomou-se um assassino.

Viverei os poucos verões até morrer
com este mundo de agressão em cerco.
Eu queria outro país, outro lugar
e tenho este infortúnio de leis amarrotadas
que não cumprem nem o violento nem o clandestino.
Um país de acasos,
um parque de campismo selvagem, um cimento apodrecido,
a música de sem abrigos nas estações de metro
enquanto não chegam comboios avariados
às plataformas de arte depredada,
um esboroamento sanguinário.
Até a linguagem que me ergueu
me sabe a sarro e a arrabalde.

Não fossem as obrigações que nos garrotam
nos fazem monstros com a lassidão de herbívoros
talvez pudesse ter o interior abandonado
e chegasse a faca do sol e me cortasse
noutra penúria mais serena.

Ainda que me digam que não olhe,
eu vejo. Ainda que me digam faz ginástica
e a depressão desaparece, nada me resolve.
Os ruídos sobem de qualquer lugar,
sintetizadores, martelos, desabamentos
uma percussão alheia a qualquer justiça.
Nenhuma janela que não fale
da construção administrativa dos piores instintos.
Todo o lixo do humano feito sebo
em qualquer lugar. Ainda que me digam
que vivemos em democracia eu digo
que não sei. Nem direitos nem deveres.
Um sem remédio ancestral.

Morreu a casa. Matou-a
o que lhe coube por contemporâneo
contra a placidez. Os autorizados
pelo conluio e pela votação.
Morreu a casa. E o pior
é não poder partir. Os laços
já se juntaram em anestesia. Preso
por outro amor, que não entende,
que não ouve como a casa já morreu.

A alguns vemo-los em qualquer pousio
Depois de fecharem as lojas
e nem se sabe o que vemos.
Aos balcões de cafés de azulejo,
com telemóveis pendurados nos cintos
e os cartões de crédito em dente na carteira.
Riem-se e batem nas costas
uns dos outros, entreolham e vigiam
se alguém diverso se aproxima
para largarem uma troça arcaica, e comem
com essa fome dos que não sofreram ainda
inquietações laborais ou crêem que virá
depressa o primeiro emprego.

Ao olhá-Ios melhor, aos seus afectos
de pessoal especializado em escuras economias
adicionais, vejo-os depois no verão.
Ao deus dará em todos os lugares,
em tendas velhas, em rulotes,
sabe-se lá onde vão cagar. E as mulheres
com os sinais exteriores da aspereza.
E as asas do inverno marítimo
auguram o aluimento.

Eu queria que na cabeça parasse
o furor de tudo o que tomba,
a derrota do dia a dia,
mas será sempre o cabide do tempo
quem estende as garras para nos alhear.
E os e-mail atravessam zonas sem remendo,
choças de tijolo com roupas a secar.

Assim armado o país.
As gentes em catástrofe deslocam-se,
deixam por testemunho o abandono e a inépcia.
Uma a uma, uma paisagem é trucidada.
Inchou a autarquias o país.
Atravessam-no a miséria e algum dinheiro
insolentes.
Um assassino
espreita outro assassino.

Os que destroem agora
podem exigir os torcionários que virão,
pois quem destrói pressente um chefe
e vai servi-Io.
E muitos hão-de sempre ser as vítimas
da liberdade que consente a violência,
da violência que não consente a liberdade.
Um assassino o país. Com as suas leis
inúteis, a sua ordem por cumprir.

Só nos resta esperar então morrer?


Joaquim Manuel Magalhães
© Rose O'Neill

"As darkness came the woods grew wilder. The heaped rocks with twisted roots of trees made strange figures. I seemed to see primeval shapes with slanted foreheads, deep arched necks, and heaping shoulders playing on primordial flutes. I had a sort of cloudy vision of pictures I was to make long afterwards-a great female figure loomed out of the rocks holding mankind on her vast bosom. That night there came to me the title of the unborn picture, The Nursing Monster."

who is so far that love cannot speak to him?

Not less light shall the gold and the green lie
On the cyclonic curl and diamonded eye, than
Love lay yesterday on the breast like a beast.
Not less light shall God tread my maze of nerve
Than that great dread of tomorrow drove over
My maze of days. Not less terrible that tread
Stomping upon your grave than I shall tread there.
Who is a god to haunt the tomb but Love?

Therefore I shall be there at morning and midnight,
Not with a straw in my hair and a tear as Ophelia
Floating along my sorrow, but I shall come with
The cabala of things, the cipher of nature, so that
With the mere flounce of a bird's feather crest
I shall speak to you where you sit in all trees,
Where you conspire with all things that are dead.
Who is so far that Love cannot speak to him?

So that no corner can hide you, no autumn of leaves
So deeply close over you that I shall not find you,
To stretch down my hand and sting you with life
Like poison that resurrects. O remember
How once the Lyrae dazzled and how the Novembers
Smoked, so that blood burned, flashed its mica,
And that was life. Now if I dip my hand in your grave
Shall I find it bloody with autumn and bright with stars?
Who is to answer if you will not answer me?

But you are the not yet dead, so cannot answer.
Hung by a hair's breadth to the breath of a lung,
Nothing you know of the hole over which you hang
But that it's dark and deep as tomorrow midnight.
I ask, but you cannot answer except with words
Which show me the mere interior of your fear,
The reverse face of the world. But this,
This is not death, the standing on the head
So that a sky is seen. O who
Who but the not yet born can tell me of my bourne?

Lie you there, lie you there, my never, never,
Never to be delivered daughter, so wise in ways
Where you perch like a bird beyond the horizon,
Seeing but not being seen, above our being?
Then tell me, shall the meeting ever be,
When the corpse dives back through the womb
To clasp his child before it ever was?
Who but the dead can kiss the not yet born?

Sad is space between a start and a finish,
Like the rough roads of stars, fiery and mad.
I go between birth and the urn, a bright ash
Soon blazed to blank, like a fire-ball. But
Nothing I bring from the before, no message,
No clue, no key, no answer. I hear no echo,
Only the sheep's blood dripping from the gun,
The serpent's tear like fire along the branch.
O who will speak from a womb or a cloud? 


George Barker

hora d'almoço #4

© Sophie Calle, The Chromatic Diet, Thursday

ressaca

North by Northwest, Alfred Hitchcock, 1959

moody summer

Call Me By Your Name, Luca Guadagnino, 2017