prestar contas

Sei que um dia tudo se tornará claro. A morte de Ialé e a amargura errante da minha vida serão ambas chamadas a prestar contas, e estou certa de que não me insurgirei, apesar de tudo o que sofri. Tenho apenas uma acusação, mais ressentida do que qualquer outra: que gente estranha e indiferente pudesse agarrar-me pelo braço e fazer-me mal...


Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia

nota prévia

Este livro trará pouca alegria ao leitor. Não o poderá consolar nem reconfortar, como muitas vezes os livros tristes sabem fazer, pois é opinião corrente que o sofrimento se reveste de força moral, na condição de ser condignamente suportado. Tenho ouvido dizer que mesmo a morte pode ser edificante, mas confesso que não acredito, pois como seria possível ignorar a sua força implacável? A morte é demasiado incompreensível, excessivamente desumana, e só perde a sua violência quando nela reconhecemos o único caminho sem retorno que nos é concedido para escapar aos nossos falsos caminhos.
É de falsos caminhos que este livro trata, e o seu tema é a desesperança. E se um escritor tem por intenção única despertar a identificação do leitor, justamente esse intuito não poderá ser aqui alcançado, pois só podemos contar com a compaixão e o entendimento dos outros se os nossos fracassos puderem ser explicados, se as nossas derrotas tiverem sido lutadas com coragem até ao fim e se o nosso sofrimento for a consequência inevitável destas duas causas razoáveis. Se por vezes somos felizes sem motivo, nunca podemos ser infelizes da mesma maneira. E, numa época severa como é a nossa, espera-se que cada um escolha o inimigo e um destino à medida das suas forças. 
O herói deste pequeno livro, porém, está tão longe de ser um herói que não sabe sequer nomear o seu inimigo, e é tão fraco que desiste da luta aparentemente ainda antes de a sua derrota sem glória ter sido decidida.

(...)


Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia 

falou comigo

© Charlotte Salomon, Epílogo em Vida? Ou Teatro? 1940-42


No alto de uma falésia crescem pimenteiras - suavemente, o vento agita as pequenas folhas prateadas. Lá em baixo, a espuma volteia e derrete-se na extensão infinita do mar. Espuma, sonhos - os meus sonhos sobre um fundo azul. Que vos gera e regenera com tamanho fulgor a partir de tanta dor e sofrimento? Quem vos deu o direito? Sonho, fala comigo - és servo de quem? Por que razão me salvas? No alto de uma falésia, crescem pimenteiras. Suavemente, o vento agita as pequenas folhas prateadas.

too many

Geschichtsunterricht, Danièle Huillet & Jean-Marie Straub, 1972

obrigado mas não obrigado

She Done Him Wrong, Lowell Sherman, 1933

segundo fórmulas de antigos magos greco-sírios

© According to prescriptions of ancient magicians, David Hockney, 1966


«Que poção elaborada com ervas
mágicas», disse um esteta,
«que poção feita consoantes as fórmulas
de antigos magos greco-sírios,
poderá por um dia (se é que a mais 
não chega o seu poder) ou por um breve instante
trazer-me de novo os vinte e três anos,
de novo o meu amigo e seus vinte e dois anos
- e trazer-me sua beleza e seu amor -.

«Que poção elaborada segundo fórmulas
de antigos magos greco-sírios
que, juntamente com esse retorno,
devolva também a nossa pequena alcova.»


Konstantinos Kavafis, 145 Poemas, trad. Manuel Resende

ao limite eu vou

porque o agalmatophilia é um registo do que se vai lendo, vendo e ouvindo, e porque não dá para enfiar aqui o mundo inteiro, a gerência inaugura o lado b onde vai poder disparar em todas as direcções: