hora d'almoço #6

© Sophie Calle, The Chromatic Diet, Friday

take them somewhere nice

© John Schabel, Passengers

you used to you used to

Call Me by Your Name, Luca Guadagnino, 2017

done and done

She Done Him Wrong, Lowell Sherman, 1933
She Done Him Wrong, Lowell Sherman, 1933
© Cy Twombly, Quattro Stagioni: Autunno, 1993-5

Twombly’s most staunch admirers are ecstatically unnerved by his canvases; a woman once spontaneously kissed one painting, leaving behind a lipsticked print. (She was, as lovers often are, unrepentant.) But, outside the art world, Twombly’s messy, seemingly thoughtless style inspired confusion and disdain. His scratchy, hectic paintings have led the unimaginative to shrug, “My kid could do that.”

Catherine Lacey, aqui

JTM: Pontos que nos transportam, para usar palavras suas, "às portas do silêncio".

TG: Na Rússia ou fora da Rússia é isso que me fascina. Conheci um homem, neste vale do Marecchia, que vivia numa grande solidão. Chamava-se Eliseu. Um dia perguntei-lhe: «Eliseu, Deus existe?». Ele ficou, primeiro, um pouco embaraçado e, depois, respondeu: «Dizer que Deus existe pode ser uma grande mentira. Dizer que não existe pode ser uma mentira maior».


JTM: E Tonino Guerra o que diz?

TG: Há, por certo, alguém que crê profundamente e todas as vezes que encontro pessoas assim, abandonadas a uma convicção, sinto-me em grande dificuldade. Conto uma história que se passou comigo e com Antonioni. Numa região remota da Ásia, caminhávamos por uma espécie de caminho de pedras e de silêncio. Subimos a uma pequena colina e vimos, no vale, um camponês que arava aquele desterro com um bocado de madeira. Imprevistamente parou, pegou num tapete desfiado e rezou voltado para oriente. Naquele deserto absoluto, aquele homem oferecia a sua solidão, os seus pensamentos. E nós virámos as costas, impressionados, na tristeza das nossas dúvidas.


Tonino Guerra entrevistado por José Tolentino Mendonça aqui

do inexplicável

JTM: A sua experiência no campo de concentração... Sabe, custa-me muito formular uma pergunta.

TG: Era muito jovem e olhava para os sofrimentos com curiosidade. Nesse lugar terrível comecei a escrever poesia em dialeto (o romagnolo), pois essa era a língua dos operários, meus companheiros. Não tinha papel e todas as noites dizia os poemas para os manter na memória. No dia de Natal de 1944 não nos serviram o 'bròdo' (uma espécie de sopa) que era de tradição comer. E os meus companheiros pediram-me que falasse das comidas de Natal. Eu com palavras e gestos criei uma ceia de Natal, longa e deslumbrante, cheia de coisas saborosas que todos fingiam apreciar. Quando acabei de servir, de fingir que servia a 'tagliatèlla', deu-se uma cena comovente: um companheiro perguntou-me se podia comer um pouco mais.


 Tonino Guerra entrevistado por José Tolentino Mendonça aqui
© Juno Calypso, Untitled I da série The Honeymoon, 2015

the we of me

Todos falam
do que encontraram no caminho.
Alguns falam também
do que não encontraram.
E uns tantos referem-se
ao que não é possível encontrar.

Mas há quem fale de um encontro
que surge de uma emboscada entre as mãos
como uma andorinha que nunca foi parte
de nenhum bando,
como um gesto secreto que recolha
a compaixão que falta nos encontros.

Todo o encontro nasce
como a água perante a sede.
O resto é uma miragem
que não chega sequer
a desconcertar o deserto.


Roberto Juarroz em A Árvore Derrubada pelos Frutos, trad. de Rui Caeiro, Duarte Pereira e Diogo Vaz Pinto