É na opacidade que os amigos se abraçam
é no fulgor dos corpos que os amantes são mais castos
é na misericordia que o Senhor é resistente.

E no entanto à noite parecemos transparentes
com a cabeça exposta a um pélago de estrelas
o coração perdido sob um dédalo de regras.


Carlos Poças Falcão, Sombra Silêncio

nas didascálias se conhece a obra

(Os precedentes. Deus Pai, sob os traços de um ancião de idade bastante avançada, barba e cabelos brancos, olhos grandes, papudos e inexpressivos, cabeça curvada, espinha arqueada de cifótico. Enverga uma longa veste de um branco sujo, apoia-se nos ombros de dois querubins, tosse, limpa o catarro da garganta, e, arrastando os pés, entra às apalpadelas, todo curvado para a frente. Dois anjos que se encontram de pé, junto ao trono, amparam-no, enquanto os outros caem de joelhos, rosto virado para o chão, braços em cruz. Atrás de Deus Pai aparece um longo cortejo de anjos, de serafins, de guardas, de servos (todos eles mulheres ou seres assexuados). Reflecte-se-lhes no rosto o tédio, a impertinência, a preocupação e o temor. Aparecem depois algumas Irmãs da Caridade, trajadas de freiras, empunhando frascos, cobertores, escarradores, etc. Devagarinho, com infinitas precauções, o cortejo acompanha Deus Pai até junto do trono. Ajudam-no a subir os dois degraus, levantam-lhe as pernas, fazem-no dar meia volta e sentam-no devagar no cadeirão de estilo bizantino, guarnecido de ricos mosaicos. Dois anjos conservam-se de pé, diante dele, outros dois atrás, e mais um de cada lado; amparam-no, cada um por sua vez, e sustentam-no nos seus braços. Um último anjo traz as muletas.)


Óscar Panizza, O Concílio do Amor
Como eu amei as raparigas lá de casa
discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar
(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa


Emanuel Félix, Habitação das Chuvas, 1977
Réponse de femmes: Notre corps, notre sexe, Agnès Varda, 1975
Réponse de femmes: Notre corps, notre sexe, Agnès Varda, 1975
Good Time, Benny Safdie e Josh Safdie, 2017
Good Time, Benny Safdie e Josh Safdie, 2017

creep

Good Time, Benny Safdie e Josh Safdie, 2017
Good Time, Benny Safdie e Josh Safdie, 2017
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