saí deste esforço

O vice-cônsul pergunta:
- Você acha que é necessário facilitar as circunstâncias para que o amor aconteça?
O director não compreende o que o vice-cônsul quer dizer.
- Você acha que é preciso ir em auxílio do amor para que ele se declare, para que nos surpreendamos um belo dia com o sentimento de amar?
O director não compreende ainda.
- Pega-se em qualquer coisa - prossegue o vice-cônsul - , assumimo-la como um princípio e damos-lhe o nosso amor. Uma mulher seria a coisa mais simples. 
O director pergunta ao vice-cônsul se ele sente amor por uma mulher de Calcutá. O vice-cônsul não responde a esta pergunta. 
- Uma mulher seria a coisa mais simples - recomeça o vice-cônsul. - É uma coisa que acabo de descobrir. Nunca senti amor, já lhe contei?
- Ainda não - o director boceja, mas pouco importa ao vice-cônsul.
- Sou virgem - prossegue o vice-cônsul.
O director sai do entorpecimento alcoólico e olha o vice-cônsul.
- Esforcei-me por amar várias vezes pessoas diferentes, mas nunca cheguei ao fim do esforço. Nunca saí do esforço de amar, compreende?
O director julga não compreender o que o vice-cônsul quer dizer. Ele diz: estou a ouvi-lo. Está pronto. 
- Saí deste esforço - prossegue o vice-cônsul. - Há algumas semanas. 


Marguerite Duras, O vice-cônsul