evitam-se as traduções menos fiéis

A voz que Bonifaz Vogel ouvia vinda do chão, como plantinhas a crescer, contava muitas coisas. Isaac Dresner encostava a boca ao tecto da cave e deixava que as frases mais gordas se apertassem pelas frestas da madeira do soalho e se alargassem pela loja de pássaros, se entrevassem no corpo de Bonifaz Vogel. 
- Um mendigo - diziam as palavras que se exprimiam através das frestas - era sempre atendido nas suas preces e um rabino, ao ver que assim era, perguntou-lhe como é que ele fazia. Como era possível que todas as suas preces fossem atendidas? O mendigo disse-lhe, ao rabino, que não sabia ler nem escrever, por isso recitava o alfabeto, limitava-se a dizer as letras, umas a seguir às outras, e pedia ao Eterno que as organizasse da melhor maneira possível.
Bonifaz Vogel esfregava a orelha depois de cada história sem dar mostras de ter entendido, mas, a partir daquela anedota, passou a rezar só com letras, sem palavras e sem bichanar. As suas preces passaram a ser o alfabeto. Para melhorar os efeitos da oração, Isaac ensinara-lhe a dizer as vinte e duas letras hebraicas.
- É melhor falar a Adonai na sua própria língua - dizia-lhe Isaac Dresner -, que é, como todos sabem, o hebraico. Evitam-se traduções menos fiéis.
E aquelas vinte e duas letras era tudo o que era preciso, garantia Isaac, debaixo do soalho. Deus faria o resto. Lá em cima, o que Ele faz é jogar scrabble. As pessoas dão-lhe umas letras, julgam que sabem o que querem, mas não sabem, e Deus com aquelas peças reorganiza tudo e faz novas palavras. Tudo se resume a um jogo de salão.
E Deus nem é grande jogador, como se pode ver pelas bombas que caem lá fora.


Afonso Cruz, A Boneca de Kokoschka