how the mighty have risen

Um gato preto, que dormia enroscado no divã, estirou-se como se fosse de borracha. Fazia um esforço enorme para manter os olhos abertos. Saltou e encaminhou-se para Marlowe; miou, roçou-se uma e outra vez nas suas calças e, depois, sentou-se diante dele. Cravou os olhos nos do detective.
- Faz sempre o mesmo, como se me censurasse alguma coisa. Apareceu por aqui um dia, há dois anos. Estava na janela, a olhar para dentro. Abri o postigo, mas, em vez de fugir, ficou a olhar-me. Estava fraco, sarnento e porco, e tinha um olhar triste que não me largava. "Era só o que te faltava, Marlowe", disse de mim para comigo, e enxotei-o para dentro. Nesse dia não fui ao escritório. Pus-lhe álcool na sarna e dei-lhe de comer. Nunca chora nem nunca me agradece nada. Salta pela clarabóia e vai dar uma volta. Quando estou muito deprimido, deita-se a dormir. Um dia, descobri que era ele que estava deprimido e fui para a cama, mas não consegui dormir porque os seus olhos brilhavam demasiado na escuridão. Como toma o whisky?

(...)

- Não se ofenda, Marlowe. Eu fico mais uma semana em Los Angeles; se não lhe causar incómodo, posso deixar o hotel e dormir nesse divã. Com a massa que poupo, podemos pagar a conta do gás. 
- Pergunte ao gato. Quem dorme no divã é ele. Mas fale-lhe devagar, porque não entende espanhol.


Triste, solitário e final, Osvaldo Soriano