cartas de amor, andorinhas

Querida Condessa,

É com arrojo que lhe escrevo esta carta, mas os meus ossos engelham-se com o tempo. Não com o tempo que passa por nós, mas com o tempo que se entranha no esqueleto, na medula, e nos faz aquele reumatismo especial que é o facto de passarmos ao lado da vida. Não é o tempo que envelhece, é o tempo mal gasto. E o meu, sem a presença da condessa, engelha-me os ossos. Mas que fazer se, quando a vejo com a saca de pão, no supermercado, a contemplar os enlatados, fico sem as palavras que me compõe. Sabia, amada condessa, que o homem faz-se de vinte e duas letras? Um alfabeto que o Eterno sabe articular nisto que nós somos. Nós para ele somos só letras e números. E ele dita um livro para cada um de nós, seja uma pedra ou um homem, ou uma lata de feijões. É a combinação das letras que nos faz estes bichos que se distinguem das pedras por sabermos o que significa uma taxa de juro. Na verdade, julgo que as pedras que vemos por aí, não são os minérios que julgam os geologistas, mas sim restos de corações humanos, desses humanos que acordam de manhã para ir trabalhar e que não sabem amar com profissionalismo. É assim que nascem as pedras, de restos de corações. Eu vi acontecer uma guerra mesmo ao lado da minha loja de pássaros e sei que aquilo faz tudo transformar-se em pedra. Quando olhei para Dresden, era um amontoado de pedras. De onde vinham as pedras que a guerra produz? Do peito dos homens, evidentemente. Os corações deles, dos homens da guerra, eram aquelas pedras mortas. Aquelas pedras e a poeria que se via por todo o lado.
Porém quando um homem sabe amar como eu, nascem ervas nos campos e os passarinhos cantam dentro de nós (e não fora como julgam as pessoas que compram canários). Os trinados de uma ave canora ouvem-se dentro de nós. As pessoal mal informadas julgam que é o canário a fazê-los, mas é a nossa alma que treme ao ouvir um pássaro a cantar. É assim que se fazem os trinados. De almas a tremer. Por isso condessa, a minha é um tremorzinho de terra quando a vê. Com a saca do pão a contemplar os enlatados. Toda a sua figura, quando a olho, é um trinado canoro.
Com esta carta, caríssima condessa dos meus olhos, quero apenas mostrar-lhe o quanto se pode ser amado. O amor não é infinito como dizem os poetas. Nem o meu é infinito, quanto mais o das outras pessoas. O que é infinito é o objecto do nosso amor finito. A condessa, para mim, é que é o infinito. Eu sou apenas alguém que sabe contemplar o horizonte que é a madame. 
Com amor,

Bonifaz Vogel


Afonso Cruz, A Boneca de Kokoschka