o trabalho da morte

A dentadura dentro do copo de água mostra o trabalho da morte, como ele é contínuo e não algo que acontece de repente. Os dentes já morreram todos, diz o copo de água com um sorriso lá dentro. Os cabelos morreram e ficaram brancos, as memórias foram engolidas. E aquela boca ri-se dentro de água, dentro do copo, mesmo ao lado da cama. E outras vezes ri-se dentro da nossa própria boca, e há nisso uma negra ironia.
Antónia está estendida na cama, a dormir. Há um gato selvagem que lhe aparece nos sonhos e urina nos cantos para afastar os outros sonhos. E há um corvo que vem todas as noites morrer de velhice num ramo de marmeleiro. Mas antes de morrer sonha com sapatos e nuvens, e entre uns e outros há uma rapariga que não sabe o que fazer com a vida e tem sobrancelhas grossas e o cabelo preto como o esquecimento.


Afonso Cruz, Jesus Cristo bebia cerveja