clarice

clarice, com os érres
extraterrestres de quem 
tem mãos frias e o coração 
quente

peito liso 
terra plana de 
quem dá um jeito e assim o é

a dos olhos oblíquos 
de pintura flamenga 
temperada entre um continente e outro

clarice com o telefone de baquelite 
na conversa amadora 
com o que há de mais secreto

farta de ser clarice, 
cheia de doença no ventre 
e fogo na ponta dos dedos 
a ditar o livro de horas 
na horizontal


Leonor Castro Nunes, na antologia Persona