a desesperação do poeta

Juan Ramón, o delicado poeta que melhor ouve o silêncio, anda há tempos desolado. Não consegue encontrar uma casa onde reine o silêncio. Há sempre barulho na rua ou na vizinhança e sente que os ruídos nunca têm fim, sendo assim o poeta como um poste de telégrafo cheio de ruíd.
Juan Ramón, que sempre encontramos nas livrarias, parecendo uma aparição como a do Senhor do Horto, conta-nos a sua tenaz apreensão.
Durante o Verão, o sapateiro do prédio tinha um grilo cuja louca cantoria soava aos ouvidos do poeta como a campainha da porta de um cinema. Juan Ramón decidiu então comprar o grilo ao sapateiro, pagando por eles pesada maquia.
Na vizinhança de Juan Ramón há um par de pianolas, tendo ele de ouvir, quando não quer, músicas que tão-pouco teria escolhido. Há momentos em que uma pessoa agradece um pouco de música, mas acontece que nunca são os escolhidos pela vizinha! As pessoas deviam ir lá abaixo perguntar ao poeta da casa se a hora é propícia.

(...)

Desesperado, Juan Ramón foi consultar vários médicos. Um recomendou-lhe que tapasse os ouvidos. Vejam só, um poeta de ouvidos tapados! Coisa impossível de entender! E ainda por cima, um Juan Ramón!... Um outro médico prometeu-lhe umas bolinhas de celulóide que os soldados usam na guerra, para evitar ficarem surdos com o estampido dos canhões; mas Juan Ramón também não o aceitou, porque ele não queria ficar tapado, surdo, separado do mundo por duas rolhas, o que ele quer é estar silencioso e atento no meio do silêncio, com as duas órbitas dos ouvidos fixas nos mares longínquos, escutando o rumor dos pássaros no interior das aves.

(...)

- Se eu lhe falasse como um médico poético, dir-lhe-ia que bebesse silêncio; mas como tenho de encontrar uma solução prática, vou recomendar-lhe que cubra o quarto com espelhos... Os espelhos recolhem tudo, menos o ruído... Nos espelhos reflectem-se as coisas, os gestos, até o fundo dos olhos, mas a palavra não se vê... Somos mudos diante dos espelhos; e eu, que uma vez monologuei diante de um espelho, senti que falava como um surdo-mudo e houve até um instante em que falei comigo por esgares e sinais... Além disso, para completar esta adstringência dos espelhos, recomendo-lhe que ponha um aquário na mesa ou pendurado no tecto... Não há nada que ponha um quarto mais surdo do que um aquário fechado, onde se mexe uma vida silenciosa e surda que não só está dentro do globo de vidro, mas dentro de água... Esse efeito, a suposição dessa vida existente num elemento metido no coração de outro elemento, influi muito no ambiente...


Ramón Gómez de La Serna, O Médico Inverosímil