repetir de manhã

(...)

Um fio eléctrico azul a passar o céu funesto
deu-te um sinal impreciso das noites
que falta dormir, corpo enrolado na concha
de onde nunca por nunca devia ter saído.

Esboças uma pintura de oitava categoria
(dizes que é para ir bem com a minha poesia)
e seu eu vejo ali uma figura, um burro, um ancestral
sinal do mal, sou parvo, são só quadrados.

Mas tens direito à expressão, sobretudo
se é calada, nada tenho contra ela, só que já muito
a ouvi. Dá-me abraços mentirosos e quando eu
estiver a dormir, vai-te embora ver o filme.


Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento