no autocarro

A tuneladora 
rompe caminho 
por ruas de sal, 
cenas de chuva, 
sonegação. 
Mudos e sós 
como forçados, 
os nossos joelhos. 
No ombro vizinho, 
não a promessa, 
mas a parede. 
Quem fala não diz 
mais do que sono. 
Rente ao soluço 
que cega a janela, 
um ponto de fuga: 
quem se não lembra 
do grande rodado 
na terra veraz, 
entrelaçando 
a vareta e o arco, 
o riso capaz, 
atrás de resedas, 
medas de feno. 
Quem não perdeu 
ao pé do ribeiro 
um rasto de amor, 
o seu desafio, 
o mundo macio 
do mergulhador 
pleno de rãs, 
perto de tudo. 

Quem não conhece 
o temor de acordar?


José Miguel Silva