Rebocando-o pouco a pouco, arrastou-o até à beira-mar, tomou o corpo vestido de branco nos braços e, estendendo-o na areia, fitou-lhe a cara cheia de espuma, na qual a morte estava já instalada, a sangrar por uma ferida enorme na garganta. De que adiantaria a respiração artificial se a cada convulsão a ferida parecia que se abria um pouco mais, e era como uma boca repugnante que chamava Marini, que o arrancava à sua pequena felicidade de tão poucas horas na ilha, gritando-lhe em jorros algo que ele já não era capaz de ouvir. Os filhos de Klaios acorriam já a toda a velocidade, seguidos mais atrás pelas mulheres. Quando Klaios chegou, os rapazes cercavam o corpo estendido na areia, sem compreender como é que ele tinha tido forças para nadar até à costa e arrastar-se até ali enquanto se esvaía. 
- Fecha-lhe os olhos - pediu uma das mulheres, chorando.
Klaios olhou para o mar, em busca de mais algum sobrevivente. Porém, estavam sozinhos na ilha, como sempre, e o cadáver de olhos abertos era a única coisa nova entre eles e o mar.


Julio Cortázar, A Ilha ao Meio Dia em Todos os Fogos o Fogo