Li esta tarde, em versão inglesa, histórias chinesas para crianças. Histórias de bichos tontos que, esquecendo a requintada civilidade do Velho Império, não se diminuíam a eles nem elogiavam as visitas, não seguravam a tigela do chá com ambas as mãos nem faziam as devidas vénias, e, no entanto, leais entre si, cumprindo a jura de não se devorar uns aos outros. 
A história da lua que se ofereceu para ser balão de um menino aleijado. À noite, o menino pediu à mãe para abrir a janela, e, deitado na cama, via subir o seu balão no ar. Um dia veio o tufão, o menino tinha pouca força, o vento puxava o frio de prata que o prendia à Lua, e, como ele não o largasse, foi levado para lá. Ainda hoje lá está, todo corcovadinho.
A história do peixe do aquário a jogar os berlindes com as bolhas de ar. E a da irmã maior a ensinar à pequenas os versos do vento no bambual.
Ler histórias de crianças, chinesas ou europeias, cria em redor de nós um mundo amável com o qual o nosso não condiz.
À hora do jantar eu teria sido capaz de conversar com as formigas, mas não consegui dizer nada às minhas companheiras de mesa.


Maria Ondina Braga, Estátua de sal