Mas a sua doença era outra. Pensou que devia estar doente do coração, se tal fosse possível. O Fleming tinha sido muito simpático em perguntar-lhe. Sentiu vontade de chorar. Pousou os cotovelos na mesa e pôs-se a tapar e a destapar os ouvidos. Ouvia o rumor do refeitória de cada vez que destapava os ouvidos. Era um ruído como o de um comboio na noite. Depois, tapava os ouvidos e o ruído desaparecia, como se o comboio entrasse num túnel. Naquela noite, em Dalkey, o comboio tinha rugido daquela forma e depois, ao entrar no túnel, o rugido tinha cessado. Fechou os olhos e o comboio prosseguiu a sua marcha, ora rugindo ora calando-se; ora rugindo novamente, ora calando-se. Era agradável ouvi-lo rugir e calar-se e depois sair de novo do túnel, trovejante, e calar-se de novo. 


James Joyce, Retrato do Artista Quando Jovem