se eu vos dissesse o que gosto deste livro

Um homem que ri é uma fonte;
o que olha a chuva
cai muito devagar em cima de si mesmo.
A sombra das árvores
pertence às ondas.
O sabor do azeite ouve-se nos mercados.

Isso é certo.

Também é verdade que há palavras
que soam, ao longe
como o mar
que abandona na praia os restos da lua,
palavras construídas
com a luz dos bosques
o metal de que é feito o ruído dos comboios

Isso é certo.
E também: nos motores frios
agoniza o leão branco da manhã.

O cheiro da rosa sobe das adegas.
Do coração do morto escapam as pombas.

Tudo é verdade
um rio é do tamanho
do homem que se afasta desse rio.
A mulher é azul quando vê as montanhas.
O que pisa a neve caminha sobre o céu.

Tudo é certo. Tu dizes
- os sinos
convertem a cidade num barco perdido.
Eu sei que isso é verdade.
Abro os olhos
e tu vês um jardim;
olho a noite
e para ti estes versos
são essa noite

Tu sabes que é verdade. Tu vieste dizer-me:
- Ou aceitamos tudo ou que tudo é mentira.


Benjamín Prado, Adivinha em que mão está a moeda, do lado esquerdo, trad. de Maria Sousa