das coisas que se repetem sempre

P - Vocês têm uma ideia fácil e simples do que é a felicidade?
X - Sim, peço a Deus que me deixe viver até à independência. Se conseguir chegar a ver a minha bandeira a flutuar na minha pátria, depois disso, estou-me nas tintas. Desde que nasci que vejo a bandeira francesa hasteada na minha pátria. Em França, continuo a ver a bandeira francesa.
Z - Para mim, é o fim do ódio. Que acabe o medo, que acabe o temor. Que possamos sair à rua sem que nos olhem de soslaio. Que deixem de existir chuis nas ruas.

(...)

P - O que significa o amor para um argelino em França?
X - Antes, ainda havia uma esperança para as mulheres. Agora já não. Elas também têm medo. Uma mulher francesa que ande com um argelino também é maltratada. Não temos qualquer esperança de ser amados por uma mulher francesa. As mulheres francesas que poderiam vir connosco, preferem os negros. Depois, há as prostitutas. Mas não gostamos de andar com prostitutas. Está tudo acabado para um argelino que viva em França, o amor esvai-se à sua frente. 

(...)

P - E quanto à solidão? Ao aborrecimento?
X - Sinto-me só. Sinto-me tão só, longe da pátria e da família como nenhum homem europeu pode imaginar. Felizmente, somos muitos. Vocês, franceses, não imaginam a solidariedade que existe entre nós. Na fome, na solidão, nos maus tratos, somos todos irmãos. Vocês não fazem ideia do que isso é. Só estamos à espera de uma coisa - de poder partir.

(...)

P - Que palavras utilizariam para definir a vossa vida?
X - Creio que poderíamos defini-la como uma vida aterrorizada. Levamos uma vida aterrorizada. Somos seres desprezados, desprovidos da nossa honra e dignidade, perante os patrões. Mesmo diante de muito operários franceses, somos gente desprovida de honra e dignidade. É impossível alguém imaginar o que isto é, ninguém pode imaginar. Há uma grande discriminação. A palavra, já que nos pede uma palavra, é esta: racismo. Há uma grande diferença entre vocês e nós - ESTA PALAVRA.


Marguerite Duras, Dois Guetos em Outside (entrevista publicada originalmente no France-Observateur, 1961)