Sophia de Mello Breyner Andresen, João César Monteiro, 1969 


Manda a verdade que se diga que Dona Sophia se deixou filmar num permanente estado de pânico, e o seu assentimento só foi possível porque, ao mesmo tempo, não resistiu à fascinação que o cinema acaba por exercer sobre a maior parte das pessoas. A Maria, e os irmãos, que não aprenderam a desconfiar o suficiente da vida, que não tiveram ainda tempo de pesar o peso que têm no mundo, acreditaram que eu não era o portador da peste, como o Nosferatu, e colaboraram maravilhosamente comigo. Mas era o portador de um instrumento chamado máquina de filmar que pode ser monstruosamente agressivo. Creio que, ainda que de um modo não consciente, Sophia se deu conta disso e não lhe posso levar a mal por se ter ofendido. A sua recusa em estabelecer com a câmara qualquer espécie de pacto é por demais evidente ao longo de todo o filme e não vale a pena perder tempo a falar nisso. De resto, na véspera de lhe mostrar a cópia síncrona do filme, não consegui dormir, apesar de ter plena consciência que, no plano moral, nada havia de ofensivo para a sua pessoa. Acho que ela gostou imenso do filme, e saber isso foi extremamente agradável para mim. Pude, enfim, dormir em paz.


João César Monteiro, publicado em O Tempo e o Modo, 1969