Os monumentos do homem parecem-se com pedaços do seu esqueleto ou de um qualquer esqueleto, com grandes ossos descarnados: não evocam nenhum habitante do seu tamanho. As mais enormes das catedrais apenas deixam sair uma multidão informe de formigas, e mesmo a vivenda, o mais sumptuoso dos castelos feitos para um só homem são ainda melhor comparáveis a uma colmeia ou a um formigueiro de numerosos compartimentos do que a uma concha. 

(...)

Não sei porquê mas desejaria que o homem, em vez desses enormes monumentos que apenas testemunham a desproporção gigantesca da sua imaginação e do seu corpo (ou então dos seus ignóbeis costumes sociais, corporativos), em vez mesmo de essas estátuas à sua escala ou ligeiramente maiores (penso no David de Miguel Ângelo) que não são senão simples representações de si, esculpisse umas espécies de nichos, de conchas do seu tamanho, de coisas muito diferentes da sua forma de molusco mas contudo a ela proporcionadas (as palhotas negras satisfazem-se bastante deste ponto de vista), que o homem pusesse o seu cuidado em criar para as gerações uma morada não muito mais corpulenta que o seu corpo, que todas as suas imaginações e razões aí estivessem compreendidas, que ele usasse o seu génio para o ajustamento e não para a desproporção - ou, pelo menos, que o génio reconhecesse em si os limites do corpo que o suporta. 


Francis Ponge, Alguns Poemas