A relação do homem com o objecto não é de todo apenas de posse ou uso. Não, seria demasiado simples. É muito pior.
Os objectos estão fora da alma, é certo; contudo, eles são também os fusíveis do nosso juízo.
Trata-se de uma relação no acusativo.

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O homem é um corpo esquisito, que não tem o centro de gravidade em si mesmo.
A nossa alma é transitiva. Precisa de um objecto que a afecte, como seu complemento directo, imediatamente.
(...)

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Por felicidade, contudo, o que é o ser? - Não há senão maneiras de ser, sucessivas. Há tantas quanto objectos. Tantas quanto batimentos de pálpebras. 
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Fôssemos apenas um corpo e seguramente estaríamos em equilíbrio com a natureza.
Mas a nossa alma está do mesmo lado que nós na balança.
Leve ou pesada, não sei.
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O homem não é senão um navio pesado, um pássaro pesado, sobre o abismo. 
Sabemo-lo por experiência.
Cada "battibaleno" no-lo confirma. Batemos o olhar, como o pássaro a asa, para nos aguentarmos.
(...)
O homem, o maisdas vezes, não abraça senão as suas emanações, os seus fantasmas. Esses são os objectos subjectivos. 
Não faz mais do que valsar com eles, cantando todos a mesma canção; depois levanta voo com eles ou abisma-se.

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Precisamos pois de escolher objectos verdadeiros, objectando indefinidamente aos nossos desejos. Objectos que voltemos a escolher dia após dia, e não como o nosso cenário, a nossa moldura; antes como os nossos espectadores, os nossos juízes; para não sermos, é certo, nem os seus dançarinos, nem os seus palhaços.
Enfim, o nosso secreto conselho.
E assim compormos o nosso templo doméstico:
Cada um de nós, enquanto somos, conhece bem, suponho, a sua Beleza.
Ela fica ao centro, jamais atingida.
Tudo em ordem à sua volta.
Ela, intacta.
Fonte do nosso pátio. 


Francis Ponge, Alguns Poemas