a noite é escura, mas isso não me assusta.
ainda há dois cigarros no maço
e tenho a infância toda por lembrar.

quando era miúda e dormia sestas com a minha avó
a morte tinha um nome 
que hoje provoca em nós o riso:
laranja.

via a mão dela na minha,
e encostava o ouvido ao peito cansado
a contar cada passo do coração.

hoje não sei que nome dar àquela faixa escura
no canto do quarto,
que me lembra o medo que sempre tive de portas abertas,
e distraio-me com coisas do mundo 
sem as chamar até mim.

na infância era tudo muito mais claro
e uma cor era um tigre de sentinela à porta da casa,
ou as maldades que as crianças orquestravam no recreio.

ainda hoje a imobilidade é o estado natural do medo,
mas não repito a ninguém o nome dos meus moinhos.


Leonor Castro Nunes