instrumentos

Agora que desapareceram por momentos os fantasmas,
que as bruxas recolheram às suas mais próximas mansões,
que os feiticeiros guardaram nos tambores as máscaras listradas,
apenas restam na floresta os sensatos cordeirinhos bíblicos,
apodrecendo, semeando lápides pelos cafés,
falando de Rilke e de Neruda,
e dos outros mais próximos companheiros seus.

Felizes possuidores de todas as ferramentas,
monges encapuzados de uma sua religião,
arqueólogos de gestos e palavras,
não são eles quem me pode dizer
a cifra que decifra a linguagem de ao pé,
a palavra exacta para nascer o poema,
o momento certo de beijar a prostituta.

Porque eles não sabem
o que separa a pedra do musgo,
o templo do bordel,
o beijo do acto,
o arco da sombra do arco.

Faltam-lhes os instrumentos
(bússolas, conta-quilómetros)
que permitem medir a distância,
no tempo das nossas mortes,
do tiro ao punhal,
do punhal à mão,
da mão ao grito e aos vermes.

E eu, viajante sempre de órbitas afastadas,
face de lua virada à noite,
poeta subindo devagar a cidade,
animal feroz de garras recolhidas,
- eu que sei pesar as profundidades do eco
e contar a vida dos construtores de violinos -
não posso perder o meu tempo a ensinar-lhes.


José Manuel Simões