JTM: Pontos que nos transportam, para usar palavras suas, "às portas do silêncio".

TG: Na Rússia ou fora da Rússia é isso que me fascina. Conheci um homem, neste vale do Marecchia, que vivia numa grande solidão. Chamava-se Eliseu. Um dia perguntei-lhe: «Eliseu, Deus existe?». Ele ficou, primeiro, um pouco embaraçado e, depois, respondeu: «Dizer que Deus existe pode ser uma grande mentira. Dizer que não existe pode ser uma mentira maior».


JTM: E Tonino Guerra o que diz?

TG: Há, por certo, alguém que crê profundamente e todas as vezes que encontro pessoas assim, abandonadas a uma convicção, sinto-me em grande dificuldade. Conto uma história que se passou comigo e com Antonioni. Numa região remota da Ásia, caminhávamos por uma espécie de caminho de pedras e de silêncio. Subimos a uma pequena colina e vimos, no vale, um camponês que arava aquele desterro com um bocado de madeira. Imprevistamente parou, pegou num tapete desfiado e rezou voltado para oriente. Naquele deserto absoluto, aquele homem oferecia a sua solidão, os seus pensamentos. E nós virámos as costas, impressionados, na tristeza das nossas dúvidas.


Tonino Guerra entrevistado por José Tolentino Mendonça aqui