nota prévia

Este livro trará pouca alegria ao leitor. Não o poderá consolar nem reconfortar, como muitas vezes os livros tristes sabem fazer, pois é opinião corrente que o sofrimento se reveste de força moral, na condição de ser condignamente suportado. Tenho ouvido dizer que mesmo a morte pode ser edificante, mas confesso que não acredito, pois como seria possível ignorar a sua força implacável? A morte é demasiado incompreensível, excessivamente desumana, e só perde a sua violência quando nela reconhecemos o único caminho sem retorno que nos é concedido para escapar aos nossos falsos caminhos.
É de falsos caminhos que este livro trata, e o seu tema é a desesperança. E se um escritor tem por intenção única despertar a identificação do leitor, justamente esse intuito não poderá ser aqui alcançado, pois só podemos contar com a compaixão e o entendimento dos outros se os nossos fracassos puderem ser explicados, se as nossas derrotas tiverem sido lutadas com coragem até ao fim e se o nosso sofrimento for a consequência inevitável destas duas causas razoáveis. Se por vezes somos felizes sem motivo, nunca podemos ser infelizes da mesma maneira. E, numa época severa como é a nossa, espera-se que cada um escolha o inimigo e um destino à medida das suas forças. 
O herói deste pequeno livro, porém, está tão longe de ser um herói que não sabe sequer nomear o seu inimigo, e é tão fraco que desiste da luta aparentemente ainda antes de a sua derrota sem glória ter sido decidida.

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Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia