A meio do serão, chegou a D. Cláudia, pálida e medrosa. Dava a aula diária e metia-se em casa. Recortava meticulosamente os folhetins do Século, encadernava-os depois em capas de carneira, que ela própria pirogravava copiando paisagens dos velhos calendários ou flores arrancadas às revistas de bordados, à natureza não, a D. Cláudia temia a natureza, a chuva, o sol, o mar, o vento, ignorava as flores que irrompem dos estrumes, e a própria vida humana, as relações sociais, os pequenos equívocos da convivência, as conversas mais acaloradas, assustavam-na. O namoro com o dr. Neto arrastava-se há anos e a culpa não era apenas dele. Um instinto profundo, a que não dava nome, avisava D. Cláudia de que em tudo havia uma crueza que era melhor não desvendar. Se olhava para dentro de si lá entrevia ao fundo, num relance, essa mesma crueza asfixiada sob cândidos folhetins ou girassóis imaginários. E asfixiava-a mais. Recortava o Exílio do Amor com renovado zelo, pegava no cautério e, apertando o folezinho de borracha, avivava a ponta de fogo, abria na carneira um rio mando de salgueiros, a guardadora, os patos, a sugestão do silêncio, ou então fragas que o musgo amaciava, grutas rasgadas numa quase ogiva de templo, uma ou outra chegonha solitária, coisas mansas, paradas. Ia protelando o casamento e o dr. Neto concordava. Também ele era tímido a seu modo, embora amasse as coisas vivas e criadoras. Atascado até ao pescoço na vida do Montouro, sabia bem o que custava uma espiga de milho, aos homens e à terra, conhecia as escuras germinações de um girassol ou de uma rosa porque ele própria as plantava para as suas abelhas (cortiços e colmeias enchiam-lhe o quintal), seguia desveladamente o trabalho e o sono dos bichinhos sábios comedores de pólen (como ele dizia),, simbolizava no doce destilar dos favos o que a Vida, a Natureza, Deus ou lá o que era, podia arrancar de belo e saboroso ao tempo, uma filosofia nascida de três ou quatro jeiras de quintal, assente em realidades vivas, botânicas e animais, porque o dr. Neto amava a realidade e só daí é que partia para as abstracções, simbologias camponesas em que o mel, por exemplo, quase alcançava o teor da suma perfeição. Largar do concreto para o ideal era o seu lema, assentar a evolução de uma ideia em coisas palpáveis como sementes, flores, abelhas, cortiços, mel, e tanto assim que quando partia para o seu platonismo amoroso recusava-se a considerar que fosse a timidez a empurrá-lo, aduzia razões de ordem absolutamente material, científica: sou um heredo-sifilítico; a D. Cláudia, uma constituição linfática, fragilíssima; pois bem, casamo-nos e depois que filhos deitamos ao mundo? Saltava daqui para implicações morais: não me parece justo chamar à vida um ser doentio, deformado ou louco; punha mesmo em dúvida se era lícito a alguém fazê-lo, um rei que fosse, com o problema da sucessão às voltas; e a verdade é que tudo isso está dentro das possibilidades do nosso casamento; etc, etc; até se ver claramente que não tinha o direito de insistir com a D. Cláudia. Neste ponto encontravam-se os dois. Por caminhos diversos chegavam ao acordo tácito de que aquele puro amor lhes ia bastando por agora, e um dia que a ciência possa garantir-me uma sã descendência, dizia o dr. Neto, um dia em que eu me atreva a fitar a crueza da vida, pensava a D. Cláudia, nesse dia, talvez acabassem por casar.
Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva

















