ix

A meio do serão, chegou a D. Cláudia, pálida e medrosa. Dava a aula diária e metia-se em casa. Recortava meticulosamente os folhetins do Século, encadernava-os depois em capas de carneira, que ela própria pirogravava copiando paisagens dos velhos calendários ou flores arrancadas às revistas de bordados, à  natureza não, a D. Cláudia temia a natureza, a chuva, o sol, o mar, o vento, ignorava as flores que irrompem dos estrumes, e a própria vida humana, as relações sociais, os pequenos equívocos da convivência, as conversas mais acaloradas, assustavam-na. O namoro com o dr. Neto arrastava-se há anos e a culpa não era apenas dele. Um instinto profundo, a que não dava nome, avisava D. Cláudia de que em tudo havia uma crueza que era melhor não desvendar. Se olhava para dentro de si lá entrevia ao fundo, num relance, essa mesma crueza asfixiada sob cândidos folhetins ou girassóis imaginários. E asfixiava-a mais. Recortava o Exílio do Amor com renovado zelo, pegava no cautério e, apertando o folezinho de borracha, avivava a ponta de fogo, abria na carneira um rio mando de salgueiros, a guardadora, os patos, a sugestão do silêncio, ou então fragas que o musgo amaciava, grutas rasgadas numa quase ogiva de templo, uma ou outra chegonha solitária, coisas mansas, paradas. Ia protelando o casamento e o dr. Neto  concordava. Também ele era tímido a seu modo, embora amasse as coisas vivas e criadoras. Atascado até ao pescoço na vida do Montouro, sabia bem o que custava uma espiga de milho, aos homens e à terra, conhecia as escuras germinações de um girassol ou de uma rosa porque ele própria as plantava para as suas abelhas (cortiços e colmeias enchiam-lhe o quintal), seguia desveladamente o trabalho e o sono dos bichinhos sábios comedores de pólen (como ele dizia),, simbolizava no doce destilar dos favos o que a Vida, a Natureza, Deus ou lá o que era, podia arrancar de belo e saboroso ao tempo, uma filosofia nascida de três ou quatro jeiras de quintal, assente em realidades vivas, botânicas e animais, porque o dr. Neto amava a realidade e só daí é que partia para as abstracções, simbologias camponesas em que o mel, por exemplo, quase alcançava o teor da suma perfeição. Largar do concreto para o ideal era o seu lema, assentar a evolução de uma ideia em coisas palpáveis como sementes, flores, abelhas, cortiços, mel, e tanto assim que quando partia para o seu platonismo amoroso recusava-se a considerar que fosse a timidez a empurrá-lo, aduzia razões de ordem absolutamente material, científica: sou um heredo-sifilítico; a D. Cláudia, uma constituição linfática, fragilíssima; pois bem, casamo-nos e depois que filhos deitamos ao mundo? Saltava daqui para implicações morais: não me parece justo chamar à vida um ser doentio, deformado ou louco; punha mesmo em dúvida se era lícito a alguém fazê-lo, um rei que fosse, com o problema da sucessão às voltas; e a verdade é que tudo isso está dentro das possibilidades do nosso casamento; etc, etc; até se ver claramente que não tinha o direito de insistir com a D. Cláudia. Neste ponto encontravam-se os dois. Por caminhos diversos chegavam ao acordo tácito de que aquele puro amor lhes ia bastando por agora, e um dia que a ciência possa garantir-me uma sã descendência, dizia o dr. Neto, um dia em que eu me atreva a fitar a crueza da vida, pensava a D. Cláudia, nesse dia, talvez acabassem por casar.


Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva

acautela a tua dor

já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada a nada:
acautela a tua dor que se não torne académica


Herberto Helder, Servidões

so long dearest stilt

I see you drinking at a fountain with tiny
blue hands, no, your hands are not tiny
they are small, and the fountain is in France
where you wrote me that last letter and
I answered and never heard from you again.
you used to write insane poems about
ANGELS AND GOD, all in upper case, and you
knew famous artists and most of them
were your lovers, and I wrote back, it’ all right,
go ahead, enter their lives, I’ not jealous
because we’ never met. we got close once in
New Orleans, one half block, but never met, never
touched. so you went with the famous and wrote
about the famous, and, of course, what you found out
is that the famous are worried about
their fame –– not the beautiful young girl in bed
with them, who gives them that, and then awakens
in the morning to write upper case poems about
ANGELS AND GOD. we know God is dead, they’ told
us, but listening to you I wasn’ sure. maybe
it was the upper case. you were one of the
best female poets and I told the publishers, 
editors, “ her, print her, she’ mad but she’
magic. there’ no lie in her fire.” I loved you
like a man loves a woman he never touches, only
writes to, keeps little photographs of. I would have
loved you more if I had sat in a small room rolling a
cigarette and listened to you piss in the bathroom,
but that didn’ happen. your letters got sadder.
your lovers betrayed you. kid, I wrote back, all
lovers betray. it didn’ help. you said
you had a crying bench and it was by a bridge and
the bridge was over a river and you sat on the crying
bench every night and wept for the lovers who had
hurt and forgotten you. I wrote back but never
heard again. a friend wrote me of your suicide
3 or 4 months after it happened. if I had met you
I would probably have been unfair to you or you
to me. it was best like this. 


Charles Bukowski

luminosa presença da graça

Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-se comigo
quero eu dizer:
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.


Eugénio de Andrade
Leave Her to Heaven, John M. Stahl, 1945

how can anyone like a face like this?

In a Lonely Place, Nicholas Ray, 1950
In a Lonely Place, Nicholas Ray, 1950

saint nick

20,000 Days on Earth, Ian Forsyth e Jane Pollard, 2014
20,000 Days on Earth, Ian Forsyth e Jane Pollard, 2014

a minha altura

Era a minha altura. Um livro
em cima da cabeça marcava
o lugar que um lápis semestralmente
riscava na parede da cozinha.
A única sabedoria dos ossos, crescerem
como a teia sólida de um propósito
e a anatomia mais transparente.
Centímetro a centímetro
espigava o corpo imaginário, essa contabilidade
que era assim íntima, pictórica,
como uma cena burguesa.

Traço a traço a parede da cozinha
tornou-se rupestre,
a infância uma ternura assustadora.
Esta era a minha altura.
Agora sou tão mais alto e tão mais pequeno.


Pedro Mexia, Em Memória