visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
Al Berto, O Medo
Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-los para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençóis com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrelaçam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.
Maria Velho da Costa
Maria Velho da Costa
nenhuma escrita vale a felicidade de um homem
Depois de tanta morte, que fazemos
aqui? Não sabemos já se as nossas mãos
são nossas ou de um tempo que só ao de leve
lhes foi dado tocar. Vi-te ao longe, em silêncio,
num pequeno bar de Osaka, bebendo saquê,
e nada ousei dizer. Pensei que daria tudo
para ser aquela irmã perdida que só reviste
uma vez, pouco antes de, também ela, morrer.
Como seriam nosso abraço, nosso choro,
nosso riso? Ter-se-ia esfumado
a tua pressa de partir? Sim, Yasunari
Kawabata, como teria gostado de acelerar
a tua respiração monástica, mesmo
que com isso se perdesse a elegância
da tua escrita. Nenhuma escrita
vale a felicidade de um homem capaz
de cravar os olhos na terra até que as sementes
dêem flor.
Miguel Martins, cadáveres esquisitos
aqui? Não sabemos já se as nossas mãos
são nossas ou de um tempo que só ao de leve
lhes foi dado tocar. Vi-te ao longe, em silêncio,
num pequeno bar de Osaka, bebendo saquê,
e nada ousei dizer. Pensei que daria tudo
para ser aquela irmã perdida que só reviste
uma vez, pouco antes de, também ela, morrer.
Como seriam nosso abraço, nosso choro,
nosso riso? Ter-se-ia esfumado
a tua pressa de partir? Sim, Yasunari
Kawabata, como teria gostado de acelerar
a tua respiração monástica, mesmo
que com isso se perdesse a elegância
da tua escrita. Nenhuma escrita
vale a felicidade de um homem capaz
de cravar os olhos na terra até que as sementes
dêem flor.
Miguel Martins, cadáveres esquisitos
num espaço confinado
Eu levo a minha fender stratocaster e toco para ti. Se eu tivesse assentido, tê-la-ia levado e tocado uma música que talvez ainda hoje me soasse nos ouvidos. Mas nesse dia ele ainda não havia conquistado a minha confiança, era apenas uma criatura com laivos indefinidos de desespero que acreditava na urgência de ser gentil perante a minha aparente tristeza, sem perceber que a generosidade nascia do impulso de sarar a sua própria avidez de consolo. (...) E hoje nos ouvidos tenho só o som desse nome ferino, fendido - fender stratocaster - que se esgadanha a sós, tenho nos ouvidos o toque que promete. E isso é a música possível.
Catarina Costa, Dos espaços confinados
Catarina Costa, Dos espaços confinados
a coisa mais triste que há
plágio manhoso do big-bang
a matéria do poema expande, arrefece
tão estranhamente se demora e permanece
semelhando o Universo
o poema é a imagem-espelho de um corpo
sem reflexo: a poesia
oco assimétrico, residual desse princípio
colocada em lugar dubitativo, separada quase sempre
do buraco negro a que chamam literatura
poder-se-á supor que poucos são os poetas
capazes de acelerar partículas
de modo a ver-se não só o que a luz já percorreu
mas a região mais central do nada, o pátio
furioso da potência
e neste lugar de substâncias, de objectos
as palavras são figuras do imundo, coisas que
sobraram do estampido inaugural desse ‘dia inicial inteiro
e limpo’ que culminou no lugar a menos deste texto
breve logaritmo sem aplicação ou saída
resta ao poeta o embuste
de afirmar o que propende para o infindo
espiar o acesso que cada coisa consente pela fissura do milagre
e dá pelo nome de imprevisto, ou acidente
a criança na rua abrindo o caixote do lixo
onde alguém sem saber depositou o assombro de um
balão de hélio branco ainda cheio
que se soltou e subiu à laia de lua ao fim da tarde
ao pé de casa
a criança pasmou, entristeceu depois
mais tarde lembrou-se: ‘tens de escrever um poema sobre o balão
que voou do lixo e não agarrámos’
um poema é a coisa mais triste que há
e escrevi
Miguel Manso
a matéria do poema expande, arrefece
tão estranhamente se demora e permanece
semelhando o Universo
o poema é a imagem-espelho de um corpo
sem reflexo: a poesia
oco assimétrico, residual desse princípio
colocada em lugar dubitativo, separada quase sempre
do buraco negro a que chamam literatura
poder-se-á supor que poucos são os poetas
capazes de acelerar partículas
de modo a ver-se não só o que a luz já percorreu
mas a região mais central do nada, o pátio
furioso da potência
e neste lugar de substâncias, de objectos
as palavras são figuras do imundo, coisas que
sobraram do estampido inaugural desse ‘dia inicial inteiro
e limpo’ que culminou no lugar a menos deste texto
breve logaritmo sem aplicação ou saída
resta ao poeta o embuste
de afirmar o que propende para o infindo
espiar o acesso que cada coisa consente pela fissura do milagre
e dá pelo nome de imprevisto, ou acidente
a criança na rua abrindo o caixote do lixo
onde alguém sem saber depositou o assombro de um
balão de hélio branco ainda cheio
que se soltou e subiu à laia de lua ao fim da tarde
ao pé de casa
a criança pasmou, entristeceu depois
mais tarde lembrou-se: ‘tens de escrever um poema sobre o balão
que voou do lixo e não agarrámos’
um poema é a coisa mais triste que há
e escrevi
Miguel Manso
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