© Sebastião Salgado, Pata de lagarto, Ilhas Galápagos 

plena tarde

No campo vermelho de flores — dizem que ao prová-las
morre-se como dormindo — há um trilho

— dorso de serpente bêbada de ópio
estirada tortuosa lânguida —
por onde ela foge, e me chama…

Corro atrás, entre as duas mãos corre das pernas
sangue que chama em forte aroma

Na tarde escaldante parada como a noite,
nós dois inteiros em brasa…


só jong-ju

the animals reject their names and things return to their origins

It was the bear who began it. Said, 
I’m getting out from under. 
I am not Bear, l’Ours, Ursus, Bär 
or any other syllables 
you’ve pinned on me. 
Forget the chateu tapestries 
in which I’m led in embroidered chains. 
and the scarlet glories of the hunt 
that was only glorious for you, 
you with your clubs and bludgeons. 

Forget the fairy tales, in which I was 
your shaggy puppet, prince in hairshirt, surrogate 
for human demons. 
I’m not your coat, rug, glass-eyed trophy head, 
plush bedtime toy, and that’s not me 
in outer space with my spangled cub. 
I’m not your totem; I refuse 
to dance in your circuses; you cannot carve 
my soul in stone. 

I renounce metaphor: I am not 
child-stealer, shape-changer, 
old garbage-eater, and you can stuff 
simile also: unpeeled, 
I am not like a man. 

I take back what you have stolen, 
and in your languages I announce 
I am now nameless. 
My true name is a growl. 

(Come to think of it, I am not 
a British headdress either: 
I do not signify bravery. 
I want to go back to eating salmon 
without all this military responsibility.) 

I follow suit, said the lion, 
vacating his coat of arms 
and movie logos; and the eagle said, 
Get me off this flag. 

(...)

I could end this with a moral, 
as if this were a fable about animals, 
though no fables are really about animals. 

I could say: Don’t offend the bear, 
don’t tell bad jokes about him, 
have compassion on his bear heart; 
I could say, Think twice 
before you speak. 
I could say, Don’t take the name of anything in vain. 

But it’s far too late for that, 
because you can’t read this, 
because you can’t remember the word for read, 
because you are dizzy with aphasia, 

because the page darkens and ripples 
because it is liquid and unbroken, 
because God has bitten his own tongue 
and the first bright word of creation 
hovers in the formless void 
unspoken.


Margaret Atwood, The Tent

sento-me ao lado da primavera

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera


Ruy Belo
Room 237, Rodney Ascher, 2012
Room 237, Rodney Ascher, 2012

manifesto

0 MAIS BELO ESPECTÁCULO DE HORROR SOMOS NÓS.

Este rosto com que amamos, com que morremos, não é nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. A noite recebe as nossas mãos como se fossem intrusas, como se o seu reino não fosse pertença delas, invenção delas. Só a custo, perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem à luz diurna e implacável. A nossa miséria vive entre as quatro paredes, cada vez mais apertadas, do nosso desespero. E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade de comunicação, limitados no nosso ódio e no nosso amor, assim vivemos. Procuramos a saída - a real, a única - e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que ganham a ira, os que perdem o amor.

Já não há tempo para confusões - a Revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos. Não se pode confundir o amor a uma causa, a uma pátria, com o Amor. Não se pode confundir a adesão a tipos étnicos com o amor ao homem e à liberdade. NÃO SE PODE CONFUNDIR! Quem ama a terra natal fica na terra natal; quem gosta do folclore não vem para a cidade. Ser pobre não é condição para se ganhar o céu ou o inferno. Não estar morto não quer forçosamente dizer que se esteja vivo, como não escrever não equivale sempre a ser analfabeto. Há mortos nas sepulturas muito mais presentes na vida do que se julga e gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores.

A acção poética implica: para com o amor uma atitude apaixonada, para com a amizade uma atitude intransigente, para com a Revolução uma atitude pessimista, para com a sociedade uma atitude ameaçadora. As visões poéticas são autónomas, a sua comunicação esotérica.

Os profetas, os reformistas, os reaccionários, os progressistas arregalarão os olhos e em seguida hão-de fechá-los de vergonha. Fechá-los como têm feito sempre, afinal, e em seguida mergulharem nas suas profecias. Olharem para a parte inferior da própria cintura e em seguida fecharem os olhos de vergonha. Abandonarem-se desenfreadamente à carpintaria das suas tábuas de valores, brandirem-nas por cima das nossas cabeças como padrões para a vida, para a arte, para o amor e em seguida fecharem os olhos de vergonha às manifestações mais cruéis da vida, da arte e do amor.

MAS NÃO IMPORTA, PORQUE EU SEI QUE NÃO ESTOU SOZINHO no meu desespero e na minha revolta. Sei pela luz que passa de homem para homem quando alguém faz o gesto de matar, pela que se extingue em cada homem à vista dos massacres, sei pelas palavras que uivam, pelas que sangram, pelas que arrancam os lábios, sei pelos jogos selvagens da infância, por um estandarte negro sobre o coração, pela luz crepuscular como uma navalha nos olhos, pelas cidades que chegam durante as tempestades, pelos que se aproximam de peito descoberto ao cair da noite - um a um mordem os pulsos e cantam - sei pelos animais feridos, pelos que cantam nas torturas.

Por isso, para que não me confundam nem agora nem nunca, declaro a minha revolta, o meu desespero, a minha liberdade, declaro tudo isto de faca nos dentes e de chicote em punho e que ninguém se aproxime para aquém dos mil passos

EXCEPTO TU MEU AMOR EXCEPTO TU
MEU AMOR

minha aranha mágica agarrada ao meu peito
cravando as patas aceradas no meu sexo
e a boca na minha boca

conto pelos teus cabelos os anos em que fui criança
marco-os com alfinetes de ouro numa almofada branca
um ano dois anos um século

agora um alfinete na garganta deste pássaro
tão próximo e tão vivo
outro alfinete o último o maior
no meu próprio plexo

MEU AMOR
conto pelos teus cabelos os dias e as noites....
e a distância que vai da terra à minha infância
e nenhum avião ainda percorreu
conto as cidades e os povos os vivos e os mortos
e ainda ficam cabelos por contar
anos e anos ficarão por contar

DEFENDE-ME ATÉ QUE EU CONTE
O TEU ÚLTIMO CABELO

matéria assustada

Olheiras quase de animal nocturno eram a marca essencial daquele rosto. Nenhuma imperfeição poderia impor aos outros maior respeito do que aqueles olhos, em baixo dos quais estava uma pele dobrada várias vezes sobre si própria. Tratava-se de facto de uma concentração em redor dos olhos, não apenas de pele, enrugada, mas ainda de intensidade: todo o restante corpo de Hinnerk era amorfo e não despertava curiosidade: ele "era" os seus olhos e aquela pele. E para essa "terra", para essa pátria minúscula, que a sua expressão do olhar fundava, haviam deslizado - como se fossem resíduos de uma substância - vários acontecimentos: os mais fortes, aqueles que o haviam mudado. Certas marcas explícitas, como uma cicatriz, mostram ao ar e a todos os cidadãos um facto: de determinada marca pode dizer-se que teve origem no vidro da garrafa que um homem partiu na cara de outro, no meio de uma luta. E este é o exemplo de um facto, e da cicatriz que o memoriza e exibe. A cicatriz até pode ser datada. Mas na pele concentrada debaixo dos olhos de Hinnerk ocorrera algo de mais complexo, próximo de uma fusão entre diversos nutrientes, uma fusão entre diversos factos da sua biografia, transformados, ao longo dos anos, numa matéria comum, matéria assustada, que manifestava medo do homem, daquele que se aproxima, mas que também, ela própria, assustava. Quantas vezes de Hinnerk, o homem que tremia com medo dos outros, quantas vezes não haviam dito dele, como quem regista simplesmente o número de um edifício ou o nome de uma rua: cara de assassino, tem cara de assassino.
Hinnerk baixava a cabeça para não ouvir.


Gonçalo M. Tavares, Jerusalém
Interstellar, Christopher Nolan, 2014

antes que desperte em mim o grito

visita-me enquanto não envelheço 
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me 
com teu rosto de Modigliani suicidado 

tenho uma varanda ampla cheia de malvas 
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores 

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces 
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo 
subindo à boca sulfurosa dos espelhos 

antes que desperte em mim o grito 
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão 
derrama-se quando tua ausência se prende às veias 
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro 

perco-te no sono das marítimas paisagens 
estas feridas de barro e quartzo 
os olhos escancarados para a infindável água 

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite 
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te


Al Berto, O Medo