a oleira

gira o torno de uma mulher que um vaso se dispõe a dispor
no interior do vaso nomeia o que vai dentro de si
e é desse oxigénio
que os objectos se afunilam num mundo pleno de certeza
uma mulher compõe um poema
uma mulher contempla-o
uma mulher murmura para dentro do vaso

o único artifício para abreviar a distância que nos separa de deus
é criar um cântaro que possa ir à fonte buscar água


André Tomé, Oxus
Vejo brilhar uma estrela que,
pelos vistos, já morreu – assim
a minha vida: luminosa e, porém,
assombrada pela escuridão. Sorte a

daqueles que só conhecem a morte
pelas mãos frias – toda a vida fiz luto
por corpos ainda sãos. A felicidade

faz-me, apesar de tudo, infeliz –
é sempre a ideia do fim que traz
a música certa para os meus versos.


Maria do Rosário Pedreira
eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata (valiosa) 
num café da baixa por ser incapaz coitados deles 
de escrever os meus versos sem realizar de facto 
neles, e à volta sua, a minha própria unidade 
- Fumar, quere-se dizer

esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava ver num livro de 
versos. Pois é verdade. Denota a minha essencial falta de higiene 
(não de tabaco) e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro) 
       notável

o Armando, que escreve à minha frente 
o seu dele poema, fuma também.
fumamos como perdidos escrevemos perdidamente 
e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta 
mais espantosa e violenta incompatível e reconfortável 
do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros 
(excepto coisas como vergonha, naturalmente, 
e mortalhas)

(que se saiba) é esta a primeira vez 
que um poeta escreve tão baixo (ao nível das priscas dos outros) 
aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal condicionalismo 
de que há tanto se fala e se dispõe 
discretamente (como quem as apanha.)

sirva tudo de lição aos presentes e futuros 
nas taménidas (várias) da poesia local.
Antes andar por aí relativamente farto 
antes para tabaco que para cesariny 
(mário) de vasconcelos


Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação 
Night on Earth, Jim Jarmusch, 1991

manutenção da higiene

O papel das mulheres e dos homens era evidente na família Busbeck: os homens conseguem uma coisa e a as mulheres mantêm-na. Eram como que duas partes do mesmo exército: os homens iam à frente e ganhavam notoriedade e às mulheres estava entregue a função, extremamente difícil e delicada, de manter o alto nível das conquistas, ou seja: a cargo delas estava a manutenção da higiene da notoriedade, expressão que ganhara na família Busbeck uma consistência orgulhosa. Nenhuma mulher da família se envergonharia de dizer em voz alta: eu mantenho limpa a notoriedade do meu marido. Pelo contrário, tal frase - a ser verdadeira - expressaria, muito simplesmente, o sucesso de uma existência.


Gonçalo M. Tavares, Jerusalém
Douro, Faina Fluvial, Manoel de Oliveira, 1931
agora que já devassaram o que tinham a devassar e já peregrinaram até à casa de infância e já publicaram as fotografias raras e já escreveram o que tinham a escrever e já opinaram o que tinham a opinar e o-herberto-é-morto-viva-herberto, serve este blogue para dizer que de uma perda destas não se recupera assim do pé para a mão nem da colher para a boca. isto tudo para dizer que, mesmo quando já ninguém se lembrar do barbudo que sabia mais do que nós, os campos vão continuar a imaginar as suas próprias rosas.

a beleza vira-nos a alma do avesso

Em Abril chegam os gatos: à frente 
o mais antigo, eu tinha 
dez anos ou nem isso, 
um pequeno tigre que nunca se habituou 
às areias do caixote, mas foi quem 
primeiro me tomou o coração de assalto. 
Veio depois, já em Coimbra, uma gata 
que não parava em casa: fornicava 
e paria no pinhal, não lhe tive 
afeição que durasse, nem ela a merecia, 
de tão puta. Só muitos anos 
depois entrou em casa, para ser 
senhora dela, o pequeno persa 
azul. A beleza vira-nos a alma 
do avesso e vai-se embora. 
Por isso, quem me lambe a ferida 
aberta que me deixou a sua morte 
é agora uma gatita rafeira e negra 
com três ou quatro borradelas de cal 
na barriga. É ao sol dos seus olhos 
que talvez aqueça as mãos, e partilhe 
a leitura do Público ao domingo.


Eugénio de Andrade
© Sebastião Salgado, Pata de lagarto, Ilhas Galápagos