espelho meu, quem sou
eu? não tenho tido tempo para deixar a barba por fazer.
quanto ao resto, tenho a cara de sempre,
a que muda com os climas, e a mesma
necessidade de aperfeiçoar a técnica do
auto-retrato, de forma repetitiva e sem paixão,
para reconhecer um rosto que muda
com a luz e determinadas palavras.
foi assim que descobri esta tendência para
inclinar a cabeça para mais perto
de um dos ombros enquanto
morro,
por segundos, ao ler nesta descrição de livros alinhados
nas estantes, roupa dobrada nos armários, família
em volta da mesa, os princípios de uma ordem
provisória, que não sobreviverá sem mim
ou, no pior dos cenários, me sobreviverá,
afinal, com tudo o resto,
sem sobressaltos e uma memória
finita.

colecciono fotografias de família, vendidas em alfarrabistas
por pouco dinheiro, como prova de que estamos
a uma ou duas gerações do esquecimento.
invento dedicatórias, parentescos, datas e locais,
espalho-as em molduras pela casa para confundir visitas
e me vingar de uma memória que me atraiçoa sem descanso
porque
este rosto me levou mais de três décadas a destruir,
para agora abandonar à sua sorte, sem a gentil companhia de
desconhecidos, na descida aos infernos pelos túneis
das estações de metro ou num café quase vazio
de Alcântara, a meio da tarde, quando as mesas estão reservadas para os
que não têm ocupação ou pressa. os jornais do dia no balcão e
na parede do fundo o espelho convexo em que
Parmigianino e depois Ashbery se viram
sozinhos, rodeados de objectos, e a certeza de mais uma
morte fixada em auto-retrato.


Tiago Araújo
A Comédia de Deus, João César Monteiro, 1995
The Thing, John Carpenter, 1982
The Verdict, Sidney Lumet, 1982
The Judge, David Dobkin, 2014
De todas as portas - a última

Porém nunca ninguém 
bateu primeiro a todas


Reiner Kunze, Poemas
O planeamento e a decoração da casa foram supervisionadas pela minha avó Adelia. Ela morreu antes de eu nascer, mas pelo que ouvi dizer era suave como a seda e fria como o gelo, mas com uma vontade forte como o aço. Para além disso, tinha inclinação para a cultura, o que lhe dava uma certa autoridade moral. Hoje em dia tal não aconteceria; mas nesse tempo acreditava-se que a cultura tornava as pessoas melhores. Acreditava-se que ela podia elevar-nos, ou pelo menos as mulheres acreditavam. Ainda não tinham visto Hitler na ópera.


Margaret Atwood, O Assassino Cego
K-PAX, Iain Softley, 2001
Right, now here it comes.
I killed my father when I was three.
I have muddled through several affairs
and always come out badly.
I've learned almost nothing from experience.
I head for the abyss with
monotonous regularity.

My enemies say I'm a critic because
really I'm writhing with envy
and anyway need to get married.

My friends say I'm not
entirely without talent.

Yes, I've tried suicide,
I tidied my clothes but
left no notes. I was surprised
to wake up in the morning.

One day my soul
stood outside me
watching me twitch
and grin and gibber
the skin tight
over my bones

I thought the whole world
was trying to rip me up
cut me down go through me
with a razor blade

then I discovered
a cliche: that's what I wanted
to do to the world.


Eunice de Souza, Poemas escolhidos