Parece que as tartarugas são grande admiradoras da velocidade, o que é naturalíssimo.
As esperanças sabem isso e não se preocupam.
Os famas sabem e troçam.
Os cronópios sabem e, de cada vez que encontram uma tartaruga, puxam do giz de cor e na redonda casca da tartaruga desenham uma andorinha,
Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas
é um dia a mais ou a menos na alma
Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte
o excesso mais perfeito
Queria um poema de respiração tensa
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.
Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura
e mística.
Ah, como eu queria um poema diferente
da pureza do granito, e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo. E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão)
preciosas.
Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.
Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico
a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos, de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguração
do seu olhar. Dourado.
Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus
anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.
Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu, carregada
de nada.
Ana Luísa Amaral
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.
Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura
e mística.
Ah, como eu queria um poema diferente
da pureza do granito, e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo. E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão)
preciosas.
Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.
Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico
a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos, de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguração
do seu olhar. Dourado.
Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus
anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.
Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu, carregada
de nada.
Ana Luísa Amaral
Only the tall fellow was left. He bent down, pinched a spring of lavender, put his thumb and forefinger to his nose and snuffed up the smell. When Laura saw that gesture she forgot all about the karakas in her wonder at him caring for things like that - caring for the smell of lavender. How many men that she knew would have done such a thing. Oh, how extraordinarily nice workmen were, she thought. Why couldn't she have workmen for friends rather than the silly boy she danced with and who came to Sunday night supper? She would get on much better with men like these.
Katherine Mansfield, The Garden Party
Katherine Mansfield, The Garden Party
Senhor que tudo sabes e podes
e nada fazes e ainda bem
livrai-nos das prostitutas mais irresistíveis
e dos padres que tudo perdoam
e dos poetas que têm missão a cumprir
mas principalmente livra os outros
livra todos os outros
dos inúteis sonhadores pretensiosos
inveterados bêbedos como Tu e eu
Rui Caeiro
e nada fazes e ainda bem
livrai-nos das prostitutas mais irresistíveis
e dos padres que tudo perdoam
e dos poetas que têm missão a cumprir
mas principalmente livra os outros
livra todos os outros
dos inúteis sonhadores pretensiosos
inveterados bêbedos como Tu e eu
Rui Caeiro
quando as casas estavam vivas
Nessa noite, uma casa, de repente, ergueu-se do chão e partiu flutuando.
Estava escuro e diz-se que um sibilo violento se ouviu, enquanto voava.
A casa ainda não chegara ao destino, quando as pessoas que nela moravam
lhe pediram que parasse. A casa parou.
Não havia óleo de baleia, quando pararam. Então, apanharam neve fresca,
acabada de cair e puseram-na nas lâmpadas e ela ardeu.
Tinham chegado a uma aldeia. Um homem veio até à casa e disse:
Vejam, estão a queimar neve nas lâmpadas. A neve pode arder.
Mas logo que pronunciou estas palavras, as lâmpadas apagaram-se.
Poema esquimó, tradução de José Alberto Oliveira, Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro
Estava escuro e diz-se que um sibilo violento se ouviu, enquanto voava.
A casa ainda não chegara ao destino, quando as pessoas que nela moravam
lhe pediram que parasse. A casa parou.
Não havia óleo de baleia, quando pararam. Então, apanharam neve fresca,
acabada de cair e puseram-na nas lâmpadas e ela ardeu.
Tinham chegado a uma aldeia. Um homem veio até à casa e disse:
Vejam, estão a queimar neve nas lâmpadas. A neve pode arder.
Mas logo que pronunciou estas palavras, as lâmpadas apagaram-se.
Poema esquimó, tradução de José Alberto Oliveira, Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro
espelho meu, quem sou
eu? não tenho tido tempo para deixar a barba por fazer.
quanto ao resto, tenho a cara de sempre,
a que muda com os climas, e a mesma
necessidade de aperfeiçoar a técnica do
auto-retrato, de forma repetitiva e sem paixão,
para reconhecer um rosto que muda
com a luz e determinadas palavras.
foi assim que descobri esta tendência para
inclinar a cabeça para mais perto
de um dos ombros enquanto
morro,
por segundos, ao ler nesta descrição de livros alinhados
nas estantes, roupa dobrada nos armários, família
em volta da mesa, os princípios de uma ordem
provisória, que não sobreviverá sem mim
ou, no pior dos cenários, me sobreviverá,
afinal, com tudo o resto,
sem sobressaltos e uma memória
finita.
colecciono fotografias de família, vendidas em alfarrabistas
por pouco dinheiro, como prova de que estamos
a uma ou duas gerações do esquecimento.
invento dedicatórias, parentescos, datas e locais,
espalho-as em molduras pela casa para confundir visitas
e me vingar de uma memória que me atraiçoa sem descanso
porque
este rosto me levou mais de três décadas a destruir,
para agora abandonar à sua sorte, sem a gentil companhia de
desconhecidos, na descida aos infernos pelos túneis
das estações de metro ou num café quase vazio
de Alcântara, a meio da tarde, quando as mesas estão reservadas para os
que não têm ocupação ou pressa. os jornais do dia no balcão e
na parede do fundo o espelho convexo em que
Parmigianino e depois Ashbery se viram
sozinhos, rodeados de objectos, e a certeza de mais uma
morte fixada em auto-retrato.
Tiago Araújo
eu? não tenho tido tempo para deixar a barba por fazer.
quanto ao resto, tenho a cara de sempre,
a que muda com os climas, e a mesma
necessidade de aperfeiçoar a técnica do
auto-retrato, de forma repetitiva e sem paixão,
para reconhecer um rosto que muda
com a luz e determinadas palavras.
foi assim que descobri esta tendência para
inclinar a cabeça para mais perto
de um dos ombros enquanto
morro,
por segundos, ao ler nesta descrição de livros alinhados
nas estantes, roupa dobrada nos armários, família
em volta da mesa, os princípios de uma ordem
provisória, que não sobreviverá sem mim
ou, no pior dos cenários, me sobreviverá,
afinal, com tudo o resto,
sem sobressaltos e uma memória
finita.
colecciono fotografias de família, vendidas em alfarrabistas
por pouco dinheiro, como prova de que estamos
a uma ou duas gerações do esquecimento.
invento dedicatórias, parentescos, datas e locais,
espalho-as em molduras pela casa para confundir visitas
e me vingar de uma memória que me atraiçoa sem descanso
porque
este rosto me levou mais de três décadas a destruir,
para agora abandonar à sua sorte, sem a gentil companhia de
desconhecidos, na descida aos infernos pelos túneis
das estações de metro ou num café quase vazio
de Alcântara, a meio da tarde, quando as mesas estão reservadas para os
que não têm ocupação ou pressa. os jornais do dia no balcão e
na parede do fundo o espelho convexo em que
Parmigianino e depois Ashbery se viram
sozinhos, rodeados de objectos, e a certeza de mais uma
morte fixada em auto-retrato.
Tiago Araújo
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