Nachauri e Niquita deram-se as duas mãos, porque propendiam tanto um para o outro que a mão direita lhes parecia pouco e a esquerda o princípio de um amor tímido. As duas mãos são o cumprimento dos que se raptam por comum acordo.
Ramón Goméz de La Serna, Os Dois Marinheiros (Falsa Novela Chinesa), 6 Falsas Novelas
taças tiritantes
O estrangeiro observava que toda a casa parecia uma loja de antiguidades cheia de antiquários, com a particularidade de que o caruncho vivia naqueles tipos e havia morrido de frio nos móveis, que se desfibravam de velhos e cujas portas e gavetas não se podiam abrir às vezes de tão emperrados pelo frio que estavam.
Num aparador retiniam as taças de cristal como se passasse um comboio subterrâneo por baixo da povoação, quando na verdade só tiritavam de frio.
Viam-se os retratos de família, tanto eles como elas muito agasalhados e com mangotes, como se nem sequer nos retratos pudessem resistir à temperatura desprovidos dessas precauções. Entre aqueles retratos de família destacava-se o da esposa do Grande Fédor, que todos se recordavam porque fazia um chá com ervas cujo segredo levou para o outro mundo. Tinha uma grande expressão aquele quadrinho de vidro convexo, porque antes de morrer Virginia Alirineva disse ao seu esposo: «Estarei dentro do vidro dessa quadro», e com efeito havia olhares, resplendores súbitos e luzes de histeria naquela grande córnea de vidro.
Ramón Gómez de La Serna, Maria Yarsilovna (Falsa Novela Russa), 6 Falsas Novelas
Num aparador retiniam as taças de cristal como se passasse um comboio subterrâneo por baixo da povoação, quando na verdade só tiritavam de frio.
Viam-se os retratos de família, tanto eles como elas muito agasalhados e com mangotes, como se nem sequer nos retratos pudessem resistir à temperatura desprovidos dessas precauções. Entre aqueles retratos de família destacava-se o da esposa do Grande Fédor, que todos se recordavam porque fazia um chá com ervas cujo segredo levou para o outro mundo. Tinha uma grande expressão aquele quadrinho de vidro convexo, porque antes de morrer Virginia Alirineva disse ao seu esposo: «Estarei dentro do vidro dessa quadro», e com efeito havia olhares, resplendores súbitos e luzes de histeria naquela grande córnea de vidro.
Ramón Gómez de La Serna, Maria Yarsilovna (Falsa Novela Russa), 6 Falsas Novelas
Não é já a própria língua uma tradução, pois que tenta por palavras mostrar outras entidades? Aqui, posso dar-te um exemplo, Cesário. A sombra é o efeito de transposição dos contornos de um corpo numa determinada superfície sob o efeito da luz, mas a linguagem adoptou este fenómeno físico nos sentidos metafísico, moral e artístico. Em sentido metafísico, a luz é a verdade que devemos perseguir num contínuo esforço de libertação das sombras da falsidade; em sentido moral, a luz é o bem que deve ser mantido em contraposição ao escuro do mal; em sentido artístico, as sombras são o fruto da luz. De propósito, introduzi expressões que alteram continuamente o desejo de tradução do sentido físico de sombra. Em cada tradução destes domínios da linguagem (metafísico, moral e artístico) há algo que se altera substancialmente. Na metafísica, a linguagem procura elucidar o sentido de inteligibilidade através do sentido de ver (que não é o sentido empírico da visão, embora dependa dele); na moral, a linguagem procura elucidar o sentido de criação através do sentido de florescimento. A todas estas tentativas de elucidação pelo meio da tradução é comum o sentido de luz, ou antes, de sol. A luz ou o sol são o que permite ver, o que permite a vida e o que a renova sempre.
Paulo José Miranda, Um prego no coração
Paulo José Miranda, Um prego no coração
Mas, por mais irónico que seja, eu, Caro, ainda aqui estou. Ainda tenho de conseguir morrer, e quaisquer poderes que eu tenha têm de concentrar-se para que isso aconteça depressa. Quero que a minha morte seja mais parecida comigo do que esta degradação lenta. "Não entres suavemente naquela boa noite"... as palavras, tão gastas agora, tornam a mim como uma ordem vinda de algures lá bem no fundo, onde ainda há um fogo, ainda que seja só o fogo da ira e da repugnância.
May Sarton, Prepara-te para a morte e segue-me
May Sarton, Prepara-te para a morte e segue-me
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on that sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Dylan Thomas
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on that sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Dylan Thomas
Let me gaze into your lovely eyes, said a man to a mirror.
The mirror said nothing, but gazed back into the man's lovely eyes.
His mother said, stop tormenting the mirror.
I'm gazing into its lovely eyes, said the man.
Those are your lovely eyes, said the mother, which are not so lovely, as they are more like spyglasses than eyes.
His father said, what lovely thing are you doing to the mirror?
Tormenting it, said the man as he continued to gaze into the mirror's lovely eyes...
Russell Edson, O Espelho Atormentado
The mirror said nothing, but gazed back into the man's lovely eyes.
His mother said, stop tormenting the mirror.
I'm gazing into its lovely eyes, said the man.
Those are your lovely eyes, said the mother, which are not so lovely, as they are more like spyglasses than eyes.
His father said, what lovely thing are you doing to the mirror?
Tormenting it, said the man as he continued to gaze into the mirror's lovely eyes...
Russell Edson, O Espelho Atormentado
(...) Olhou o largo aonde há algumas horas o aldrabão de feira anunciava o seu produto que constituía panaceia para todos os males com o seu engraçado e enorme funil pintado de castanho. "Devia ter comprado o remédio", reflectiu com amargura.
"Talvez o xarope curasse corações cansados de viver até às pontas dos cabelos."
E assim ficou pensativamente triste como se o vento desgrenhasse todos os escaninhos da sua alma.
Graça Pina de Morais, A mulher do chapéu de palha
"Talvez o xarope curasse corações cansados de viver até às pontas dos cabelos."
E assim ficou pensativamente triste como se o vento desgrenhasse todos os escaninhos da sua alma.
Graça Pina de Morais, A mulher do chapéu de palha
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