Jaws, Steven Spielberg, 1975
What We Did on Our Holiday, Andy Hamilton e Guy Jenkin, 2014

as raízes sinuosas do afecto

Habito as distâncias
vivo dentro das distâncias

as tuas mãos, o teu rosto,
a claridade, que pelos teus olhos…
o mundo, que pelos teus olhos…
povoam as minhas distâncias.
Sabias?

Não. Ninguém sabe de ninguém os mundos
que cada um habita.

Falo-te. Nunca te disse.
em longas falas digo-te coisas tão particulares
de cada um de nós
de tudo em volta.
Das pequenas misérias diárias
dos pequenos nadas
do livro que se leu.
Do que se sente
do que se pressente
do que dói.
Das coisas diárias…

Do reparar nas coisas. A beleza das coisas.
Da harmonia do silêncio. A harmonia.
Das raízes sinuosas do afecto os inexplicáveis elos.

Tudo fica entre mim.
É quasi perfeito como diálogo, o nosso.
Que me responderias?
Que me poderias responder melhor
do que aquilo que te atribuo como resposta?

Na minha distância espero-te
sabendo que não sabendo tu que te espero
nunca virás.
É isso essencialmente a distância.
Aí preparo em cada dia especiais momentos
para a tua inexplicável chegada.


Maria Keil
Jean Cocteau s'adresse... à l'an 2000, Jean Cocteau, 1962
O senhor Valéry vestia sempre de negro. Ele explicava:

- Ao verem-me de preto julgam-me de luto e, por compaixão, não me enviam mais sofrimento.

E dizia ainda:

- Não se pode sofrer o dobro de muito. É essa, aliás, a única razão por que consigo ser feliz, em certos dias: o meu fato de luto engana-os. E é sempre boa a sensação de enganar os mais fortes - acrescentava, orgulhoso, o senhor Valéry, nunca se sabendo propriamente a quem se referia. O senhor Valéry, porém, insistia:

É como uma reacção química.
E desenhou

(...)

- Se de um lado se encontra tudo escuro e do outro tudo claro, a tendência é para o lado escuro oferecer escuro ao lado claro e o lado claro oferecer claridade ao lado escuro. Passado algum tmpo encontra-se um equilíbrio.

(E nessa altura o senhor Valéry fez outro desenho)

(...)

- O meu truque - dizia o senhor Valéry enquanto, distraído pelos raciocínios, vestia um fato branco - o meu truque - dizia ele - é andar sempre vestido de luto. Para atrair a alegria.


O Senhor Valéry e a lógica, Gonçalo M. Tavares

It is not a symphony in which I have included Psalms to be sung. On the contrary, it is the singing of the Psalms that I am symphonizing.

Igor Stravinsky

objects of torment

They have little use. They are best as objects of torment.
No government cares what you do with them.

Like birds, and yet so human...
They mate by briefly looking at the other.
Their eggs are like white jellybeans.

Sometimes they have been said to inspire a man to do more with his life than he might have.
But what is there for a man to do with his life?

...They burn beautifully with a blue flame.

When they cry out is like the screech of a tiny hinge; the cry of a bat. No one hears it...


Russell Edson, O Espelho Atormentado

de como as visitas se despedem

Um convidado pode ser ainda descrito como alguém que vem a nossa casa com convite. Quem vem sem convite, é uma aranha ou a família.

(...)

Em todos os grupos de seis ou mais pessoas  que vêm jantar, é razoável partir do princípio de que pelo menos quatro delas não só o detestam a si como à comida. Começará a notá-lo logo que os pratos de sopa tiverem sido levantados. Ouvir-se-á um tamborilar persistente de uma faca e um garfo. É assim que o informam, por Morse, que a sua cozinheira deve estar bêbeda. O tamborilar cresce à medida que o jantar avança e, por fim, anunciam, depois da sobremesa e ainda em código, que teriam jantado melhor se tivessem ficado em casa e comido a refeição do cão.


Groucho Marx, Memórias de um pinga-amor

muda lição

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.


Cecília Meireles