(...) Mesmo que tenha deixado essas poesias escritas, não acredito que tenham sobrevivido. Aquilo é uma selva.
«Se os homens como nós têm dificuldades em sobreviver sozinhos, imagine duas poesias.»


Afonso Cruz, O Cavaleiro Ainda Persegue/A Mesma Donzela

Malaria, Edson Oda
Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias
chegaríamos a iguais resultados
pelo que de nada adianta imaginar um almagesto
ou tabelas de paralaxe para isto
a que convencionalmente chamamos amor,
nem calcular o ângulo
entre nós e o centro da terra,
de nada nos aproveitara, tu e eu
centros escorraçados de irregular gravitação.

Porém, isso não me impediu de ver plêiades
cada vez que surgias (só
não te dizia nada) plêiades iluminando
meu Hades
com suas cabrinhas coruscantes
pascendo
o vale da sombra da morte.

E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?
quando o melancólico transístor
destila também outras perguntas, mas nenhuma
tão dura quanto essa,
por exemplo: porque é que a água tem mais tendência
a subir em tubos estreitos
ao contrário do mercúrio?
Isto é view-master e são coisas que faço
na tua ausência.


Daniel Jonas
Stranger than fiction, Marc Forster, 2006

nocturno

Acostado a tu lado, oigo los trenes.
Cruzan mi frente sus fugaces luces
rasgando el horror tibio de esta noche.
La pausa de silencio me deja una luz roja,
una nota sobre este pentagrama
de cables y de vías oscuras y brillantes.
Acostado a tu lado,
oigo cómo se alejan con el ruido más triste.
Quizá me he equivocado no subiendo a uno de ellos.
Quizá el último acierto
sea -abrazado a ti-
dejar pasar los trenes en la noche.


Joan Margarit
Relatos salvajes, Damián Szifrón, 2014
Com a morte me deito
Com o dia me levanto
Canta-me um pássaro no peito
Vai-me a tristeza no canto

Vai-me a tristeza no canto
Como um cavalo no prado
Seca-me a água do pranto
Deste rio desatado


Luís Pignatelli

well, this was nice

Only God Forgives, Nicolas Winding Refn, 2013