Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto
Ruy Belo
o porquinho que dormia de costas
Havia um casal de porquinhos cujo único motivo de discórdia era a maneira como cada um deles dormia.
Dona Porquinha durante o sono ia sempre mudando de posição. Esta maneira de dormir concorreu para que adquirisse as mais elegantes formas porcinas (redondinha que nem um barril).
Já o Sr. Porquinho tinha uma maneira incómoda de dormir. Deitava-se de barriga para o ar e assim permanecia durante o sono. Por isso ressonava de tal maneira que por vezes acordava a vizinhança. E esta maneira de dormir provocava-lhe também tão grandes estremecimentos por todo o corpo que as pernas e os braços se agitavam em violento escoicinhar. E a barriga movia-se de tal maneira que mais parecia uma montanha a desabar. De tanto dormir de costas o lombo, a parte mais apreciada da beleza na espécie porcina, estava liso como uma tábua de engomar.
Dona Porquinha, depois que passaram a dormir em camas separadas, habituou-se à maneira de dormir do marido.
Um dia, o Lobo Mau conseguiu entrar em casa enquanto os porquinhos dormiam.
Foi-se à Dona Porquinha e, enquanto ela se ia virando como um frango no espeto, foi-a deglutindo paulatinamente.
Acabado aquele repasto, como ainda estava esfomeado, tentou também comer o Sr. Porquinho. Mas neste caso foi mais difícil porque o Sr. Porquinho, mesmo a dormir aplicou-lhe tantos pontapés e bofetões que o Lobo Mau teve de desistir, tendo só conseguido abocanhar-lhe um pequeno pedaço da parte de baixo da barriga.
Quando o Sr. Porquinho acordou percebeu logo o que tinha acontecido. Depois de chorar a morte da esposa, o Sr. Porquinho, que era um tanto filósofo, pensou lá com os seus botões:
«Afinal há males que vêm por bem, pois se não fosse esta minha maneira de dormir já estava a estas horas no papo do Lobo e assim a única coisa que ele me conseguiu comer foi um pequeno bocado que, aliás, até já nem me faz falta porque perdi a minha companheira».
Pedro Oom
Dona Porquinha durante o sono ia sempre mudando de posição. Esta maneira de dormir concorreu para que adquirisse as mais elegantes formas porcinas (redondinha que nem um barril).
Já o Sr. Porquinho tinha uma maneira incómoda de dormir. Deitava-se de barriga para o ar e assim permanecia durante o sono. Por isso ressonava de tal maneira que por vezes acordava a vizinhança. E esta maneira de dormir provocava-lhe também tão grandes estremecimentos por todo o corpo que as pernas e os braços se agitavam em violento escoicinhar. E a barriga movia-se de tal maneira que mais parecia uma montanha a desabar. De tanto dormir de costas o lombo, a parte mais apreciada da beleza na espécie porcina, estava liso como uma tábua de engomar.
Dona Porquinha, depois que passaram a dormir em camas separadas, habituou-se à maneira de dormir do marido.
Um dia, o Lobo Mau conseguiu entrar em casa enquanto os porquinhos dormiam.
Foi-se à Dona Porquinha e, enquanto ela se ia virando como um frango no espeto, foi-a deglutindo paulatinamente.
Acabado aquele repasto, como ainda estava esfomeado, tentou também comer o Sr. Porquinho. Mas neste caso foi mais difícil porque o Sr. Porquinho, mesmo a dormir aplicou-lhe tantos pontapés e bofetões que o Lobo Mau teve de desistir, tendo só conseguido abocanhar-lhe um pequeno pedaço da parte de baixo da barriga.
Quando o Sr. Porquinho acordou percebeu logo o que tinha acontecido. Depois de chorar a morte da esposa, o Sr. Porquinho, que era um tanto filósofo, pensou lá com os seus botões:
«Afinal há males que vêm por bem, pois se não fosse esta minha maneira de dormir já estava a estas horas no papo do Lobo e assim a única coisa que ele me conseguiu comer foi um pequeno bocado que, aliás, até já nem me faz falta porque perdi a minha companheira».
Pedro Oom
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os livros dizem-me sempre para encontrar «a solidão», mas sempre investiguei os seus autores, e eles têm esposas, filhos e netos, e pertencem a fraternidades e comunidades estudantis femininas. A mensagem universalmente paternalista dos seus autores é «Tudo bem, eu encontrei alguém com quem estar, mas se tivesse ficado lá só mais um bocadinho, tinha conseguido alcançar a solidão beatífica sobre a qual escrevo neste livro». Imagino as caras desses escritores, sentados às suas secretárias a escreverem as suas trivialidades cheias de sapiência, com expressões estóicas e sábias no rosto: «Para quê sentir-se só, quando pode apreciar a solidão?»
Bolas, numa vida inteira de celibato nunca brinquei com a ideia de determinar a minha própria solidão.
Douglas Coupland, Eleanor Rigby
Bolas, numa vida inteira de celibato nunca brinquei com a ideia de determinar a minha própria solidão.
Douglas Coupland, Eleanor Rigby
Subscrever:
Mensagens (Atom)




