Embargo, António Ferreira, 2010
a couple of ruins
1.
O what a physical effect it has on me
To dive forever into the light blue sea
Of your acquaintance! Ah, but dearest friends,
Like forms, are finished, as life has ends! Still,
It is beautiful, when October
Is over, and February is over,
To sit in the starch of my shirt, and to dream of your sweet
Ways! As if the world were a taxi, you enter it, then
Reply (to no one), “Let’s go five or six blocks.”
Isn’t the blue stream that runs past you a translation from the Russian?
Aren’t my eyes bigger than love?
Isn’t this history, and aren’t we a couple of ruins?
Is Carthage Pompeii? is the pillow the bed? is the sun
What glues our heads together? O midnight! O midnight!
Is love what we are,
Or has happiness come to me in a private car
That’s so very small I’m amazed to see it there?
2.
We walk through the park in the sun, and you say, “There’s a spider
Of shadow touching the bench, when morning’s begun.” I love you.
I love you fame I love you raining sun I love you cigarettes I love you love
I love you daggers I love smiles daggers and symbolism.
3.
Inside the symposium of your sweetest look’s
Sunflower awning by the nurse-faced chrysanthemums childhood
Again represents a summer spent sticking knives into porcelain raspberries, when China’s
Still a country! Oh, King Edward abdicated years later, that’s
Exactly when. If you were seventy thousand years old, and I were a pill,
I know I could cure your headache, like playing baseball in drinking-water, as baskets
Of towels sweetly touch the bathroom floor! O benches of nothing
Appear and reappear—electricity! I’d love to be how
You are, as if
The world were new, and the selves were blue
Which we don
Until it’s dawn,
Until evening puts on
The gray hooded selves and the light brown selves of . . .
Water! your tear-colored nail polish
Kisses me! and the lumberyard seems new
As a calm
On the sea, where, like pigeons,
I feel so mutated, sad, so breezed, so revivified, and still so unabdicated—
Not like an edge of land coming over the sea!
Kenneth Koch
O what a physical effect it has on me
To dive forever into the light blue sea
Of your acquaintance! Ah, but dearest friends,
Like forms, are finished, as life has ends! Still,
It is beautiful, when October
Is over, and February is over,
To sit in the starch of my shirt, and to dream of your sweet
Ways! As if the world were a taxi, you enter it, then
Reply (to no one), “Let’s go five or six blocks.”
Isn’t the blue stream that runs past you a translation from the Russian?
Aren’t my eyes bigger than love?
Isn’t this history, and aren’t we a couple of ruins?
Is Carthage Pompeii? is the pillow the bed? is the sun
What glues our heads together? O midnight! O midnight!
Is love what we are,
Or has happiness come to me in a private car
That’s so very small I’m amazed to see it there?
2.
We walk through the park in the sun, and you say, “There’s a spider
Of shadow touching the bench, when morning’s begun.” I love you.
I love you fame I love you raining sun I love you cigarettes I love you love
I love you daggers I love smiles daggers and symbolism.
3.
Inside the symposium of your sweetest look’s
Sunflower awning by the nurse-faced chrysanthemums childhood
Again represents a summer spent sticking knives into porcelain raspberries, when China’s
Still a country! Oh, King Edward abdicated years later, that’s
Exactly when. If you were seventy thousand years old, and I were a pill,
I know I could cure your headache, like playing baseball in drinking-water, as baskets
Of towels sweetly touch the bathroom floor! O benches of nothing
Appear and reappear—electricity! I’d love to be how
You are, as if
The world were new, and the selves were blue
Which we don
Until it’s dawn,
Until evening puts on
The gray hooded selves and the light brown selves of . . .
Water! your tear-colored nail polish
Kisses me! and the lumberyard seems new
As a calm
On the sea, where, like pigeons,
I feel so mutated, sad, so breezed, so revivified, and still so unabdicated—
Not like an edge of land coming over the sea!
Kenneth Koch
só no teu rosto
Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum
Eugénio de Andrade
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum
Eugénio de Andrade
a desesperação do poeta
Juan Ramón, o delicado poeta que melhor ouve o silêncio, anda há tempos desolado. Não consegue encontrar uma casa onde reine o silêncio. Há sempre barulho na rua ou na vizinhança e sente que os ruídos nunca têm fim, sendo assim o poeta como um poste de telégrafo cheio de ruíd.
Juan Ramón, que sempre encontramos nas livrarias, parecendo uma aparição como a do Senhor do Horto, conta-nos a sua tenaz apreensão.
Durante o Verão, o sapateiro do prédio tinha um grilo cuja louca cantoria soava aos ouvidos do poeta como a campainha da porta de um cinema. Juan Ramón decidiu então comprar o grilo ao sapateiro, pagando por eles pesada maquia.
Na vizinhança de Juan Ramón há um par de pianolas, tendo ele de ouvir, quando não quer, músicas que tão-pouco teria escolhido. Há momentos em que uma pessoa agradece um pouco de música, mas acontece que nunca são os escolhidos pela vizinha! As pessoas deviam ir lá abaixo perguntar ao poeta da casa se a hora é propícia.
(...)
Desesperado, Juan Ramón foi consultar vários médicos. Um recomendou-lhe que tapasse os ouvidos. Vejam só, um poeta de ouvidos tapados! Coisa impossível de entender! E ainda por cima, um Juan Ramón!... Um outro médico prometeu-lhe umas bolinhas de celulóide que os soldados usam na guerra, para evitar ficarem surdos com o estampido dos canhões; mas Juan Ramón também não o aceitou, porque ele não queria ficar tapado, surdo, separado do mundo por duas rolhas, o que ele quer é estar silencioso e atento no meio do silêncio, com as duas órbitas dos ouvidos fixas nos mares longínquos, escutando o rumor dos pássaros no interior das aves.
(...)
- Se eu lhe falasse como um médico poético, dir-lhe-ia que bebesse silêncio; mas como tenho de encontrar uma solução prática, vou recomendar-lhe que cubra o quarto com espelhos... Os espelhos recolhem tudo, menos o ruído... Nos espelhos reflectem-se as coisas, os gestos, até o fundo dos olhos, mas a palavra não se vê... Somos mudos diante dos espelhos; e eu, que uma vez monologuei diante de um espelho, senti que falava como um surdo-mudo e houve até um instante em que falei comigo por esgares e sinais... Além disso, para completar esta adstringência dos espelhos, recomendo-lhe que ponha um aquário na mesa ou pendurado no tecto... Não há nada que ponha um quarto mais surdo do que um aquário fechado, onde se mexe uma vida silenciosa e surda que não só está dentro do globo de vidro, mas dentro de água... Esse efeito, a suposição dessa vida existente num elemento metido no coração de outro elemento, influi muito no ambiente...
Ramón Gómez de La Serna, O Médico Inverosímil
Juan Ramón, que sempre encontramos nas livrarias, parecendo uma aparição como a do Senhor do Horto, conta-nos a sua tenaz apreensão.
Durante o Verão, o sapateiro do prédio tinha um grilo cuja louca cantoria soava aos ouvidos do poeta como a campainha da porta de um cinema. Juan Ramón decidiu então comprar o grilo ao sapateiro, pagando por eles pesada maquia.
Na vizinhança de Juan Ramón há um par de pianolas, tendo ele de ouvir, quando não quer, músicas que tão-pouco teria escolhido. Há momentos em que uma pessoa agradece um pouco de música, mas acontece que nunca são os escolhidos pela vizinha! As pessoas deviam ir lá abaixo perguntar ao poeta da casa se a hora é propícia.
(...)
Desesperado, Juan Ramón foi consultar vários médicos. Um recomendou-lhe que tapasse os ouvidos. Vejam só, um poeta de ouvidos tapados! Coisa impossível de entender! E ainda por cima, um Juan Ramón!... Um outro médico prometeu-lhe umas bolinhas de celulóide que os soldados usam na guerra, para evitar ficarem surdos com o estampido dos canhões; mas Juan Ramón também não o aceitou, porque ele não queria ficar tapado, surdo, separado do mundo por duas rolhas, o que ele quer é estar silencioso e atento no meio do silêncio, com as duas órbitas dos ouvidos fixas nos mares longínquos, escutando o rumor dos pássaros no interior das aves.
(...)
- Se eu lhe falasse como um médico poético, dir-lhe-ia que bebesse silêncio; mas como tenho de encontrar uma solução prática, vou recomendar-lhe que cubra o quarto com espelhos... Os espelhos recolhem tudo, menos o ruído... Nos espelhos reflectem-se as coisas, os gestos, até o fundo dos olhos, mas a palavra não se vê... Somos mudos diante dos espelhos; e eu, que uma vez monologuei diante de um espelho, senti que falava como um surdo-mudo e houve até um instante em que falei comigo por esgares e sinais... Além disso, para completar esta adstringência dos espelhos, recomendo-lhe que ponha um aquário na mesa ou pendurado no tecto... Não há nada que ponha um quarto mais surdo do que um aquário fechado, onde se mexe uma vida silenciosa e surda que não só está dentro do globo de vidro, mas dentro de água... Esse efeito, a suposição dessa vida existente num elemento metido no coração de outro elemento, influi muito no ambiente...
Ramón Gómez de La Serna, O Médico Inverosímil
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