A Galope, Raquel Felgueiras
From Russia with Love, Terence Young, 1963
Dr. No, Terence Young, 1962
Quando as minhas, as tuas pernas
não andarem e ao horário marcado
os comboios partirem finalmente a desoras
da estação de S. Pedro - e de todas as estações
até ao fim da linha - eu poderei finalmente
dizer de óculos escuros espreitando
sobre o vermelho do teu jornal meu deus
como eu te queria, como em sonhos
te sonhava rindo, só rindo, depois do tão pouco
prazer que as minhas mãos fora dos livros
te haviam de saber dar. Esse meu livro
que nunca abro, esse meu livro que finjo ler
e afinal não, nunca, só tu e a paisagem marítima.

Pois chamo minha à escassa vida
que me calhou num sorteio, com os enganos
repetidos em tendência, característica,
serei um simples de boné e queimaduras,
valente no interpretar da tua tatuagem,
da solitária mordedura um pouco abaixo
do ombro esquerdo. Na sua fronteira - e não há
homem que a não tenha - há uma porta sempre
entreaberta, julga ingenuamente, que essa porta
é uma explicação da vida, mas quem me dera
ser a boca autora dessa mordedura, o riso
que no fim dela se despregava.

É outra vez princípio do mês. E lá vou
eu ocupar a mesma cadeira, mesmo se no chão
do banco ao lado há um fresco vomitado,
argola de magnólias a tinta azul
gorda na janeça e um perfume liaison
de hipermercado. As linhas, incertas,
do suplemento dos computadores atingem
um certo grau de elevação, porque nada me podem
dizer, são mero instrumento baço que me cobre
a cara e a vergonha de te olhar. Trabalhas, mas eu
não, eu escrevo, minto para dizer uma verdade
tão despropositada que qualquer militante
de uma igreja ambulante faria melhor.

Imagina que te via, estacada como se ainda
estivesse de pé até S. João, e te convidasse
para um gelado (imagino que estou noutro século
e digo limonada) e tu nem percebesses, fingisses,
dissesses que te parecia que sim,
que aquele parava na Cruz Quebrada.
Serei a minha primeira e última tentativa,
cansado de ouvir o ritmo enervante dos carris
por ali fora sem chegarem a lado nenhum
e a minha própria voz fastidiosa a concluir
pela milésima vez um desencanto absurdo.


Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento
The Jelly Film, Jenny van Sommers

repetir de manhã

(...)

Um fio eléctrico azul a passar o céu funesto
deu-te um sinal impreciso das noites
que falta dormir, corpo enrolado na concha
de onde nunca por nunca devia ter saído.

Esboças uma pintura de oitava categoria
(dizes que é para ir bem com a minha poesia)
e seu eu vejo ali uma figura, um burro, um ancestral
sinal do mal, sou parvo, são só quadrados.

Mas tens direito à expressão, sobretudo
se é calada, nada tenho contra ela, só que já muito
a ouvi. Dá-me abraços mentirosos e quando eu
estiver a dormir, vai-te embora ver o filme.


Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento
Locke, Steven Knight, 2013
Tráfico, João Botelho, 1998
Tráfico, João Botelho, 1998