Os Verdes Anos, Paulo Rocha, 1963
coisas que fazem o coração bater mais depressa
Pardais a alimentar as suas crias. Passar por um lugar onde brincam bebés. Dormir num quarto onde se queimou incenso delicado. Reparar que o nosso elegante espelho chinês está a ficar baço. Ver um cavalheiro parar a sua carruagem em frente ao nosso portão e mandar os criados anunciar a sua visita. Lavar o cabelo, preparar-nos e vestir roupas perfumadas. Ainda que ninguém nos veja, sentimos um imenso prazer. É de noite e esperamos uma visita. De repente somos surpreendidas pelo som das gotas da chuva que o vento atira contra as persianas.
Sei Shonagon, Coisas que fazem o coração bater mais depressa e outros textos (versões de Maria Sousa)
Sei Shonagon, Coisas que fazem o coração bater mais depressa e outros textos (versões de Maria Sousa)
Depois de termos o vinho na mesa, e de termos pedido a comida, ela disse: "Tenho uma coisa para te contar."
Não deve haver frase mais desagradável de ouvir do que esta. Há grandes hipóteses de a coisa que nos vão contar, seja ela qual for, se revelar constrangedora, e que nos seja sugerido que outras pessoas tiveram de suportar esse constrangimento, enquanto nós vivíamos numa feliz ignorância.
Alice Munro, Face em Demasiada Felicidade
Não deve haver frase mais desagradável de ouvir do que esta. Há grandes hipóteses de a coisa que nos vão contar, seja ela qual for, se revelar constrangedora, e que nos seja sugerido que outras pessoas tiveram de suportar esse constrangimento, enquanto nós vivíamos numa feliz ignorância.
Alice Munro, Face em Demasiada Felicidade
Rebocando-o pouco a pouco, arrastou-o até à beira-mar, tomou o corpo vestido de branco nos braços e, estendendo-o na areia, fitou-lhe a cara cheia de espuma, na qual a morte estava já instalada, a sangrar por uma ferida enorme na garganta. De que adiantaria a respiração artificial se a cada convulsão a ferida parecia que se abria um pouco mais, e era como uma boca repugnante que chamava Marini, que o arrancava à sua pequena felicidade de tão poucas horas na ilha, gritando-lhe em jorros algo que ele já não era capaz de ouvir. Os filhos de Klaios acorriam já a toda a velocidade, seguidos mais atrás pelas mulheres. Quando Klaios chegou, os rapazes cercavam o corpo estendido na areia, sem compreender como é que ele tinha tido forças para nadar até à costa e arrastar-se até ali enquanto se esvaía.
- Fecha-lhe os olhos - pediu uma das mulheres, chorando.
Klaios olhou para o mar, em busca de mais algum sobrevivente. Porém, estavam sozinhos na ilha, como sempre, e o cadáver de olhos abertos era a única coisa nova entre eles e o mar.
Julio Cortázar, A Ilha ao Meio Dia em Todos os Fogos o Fogo
- Fecha-lhe os olhos - pediu uma das mulheres, chorando.
Klaios olhou para o mar, em busca de mais algum sobrevivente. Porém, estavam sozinhos na ilha, como sempre, e o cadáver de olhos abertos era a única coisa nova entre eles e o mar.
Julio Cortázar, A Ilha ao Meio Dia em Todos os Fogos o Fogo
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