hot tramp, i love you so

hoje criou-se aí um fenómeno ranhoso de maldizer quem falava sobre o bowie-mais-que-tudo. se andasse tudo a partilhar mais uma opinião regurgitada sobre um assunto de proa qualquer já éramos todos uns heróis e oh, tão socialmente conscientes. amiguinhos, não desfazendo quem vai fazendo muito pelo nosso tempo, um gajo destes também conta. também é preciso ver o mundo a ser cantado e filmado e vestido como se isto fosse tudo uma rave em marte que desafia qualquer noção de espaço-tempo. 

o alien mais belo deste mundo e dos outros todos voltou prá nave-mãe. a gente fica aqui no ground control a brincar com os legos e a ficar muito agradecida por ter vivido ao mesmo tempo que ele. 
A Girl Walks Home Alone At Night, Ana Lily Amirpour, 2014

pra estas coisas não me convidam vocês #10

A Girl Walks Home Alone at Night, Ana Lily Amirpour, 2014
Os Verdes Anos, Paulo Rocha, 1963
Os Verdes Anos, Paulo Rocha, 1963

coisas que fazem o coração bater mais depressa

Pardais a alimentar as suas crias. Passar por um lugar onde brincam bebés. Dormir num quarto onde se queimou incenso delicado. Reparar que o nosso elegante espelho chinês está a ficar baço. Ver um cavalheiro parar a sua carruagem em frente ao nosso portão e mandar os criados anunciar a sua visita. Lavar o cabelo, preparar-nos e vestir roupas perfumadas. Ainda que ninguém nos veja, sentimos um imenso prazer. É de noite e esperamos uma visita. De repente somos surpreendidas pelo som das gotas da chuva que o vento atira contra as persianas.


Sei Shonagon, Coisas que fazem o coração bater mais depressa e outros textos (versões de Maria Sousa)
Depois de termos o vinho na mesa, e de termos pedido a comida, ela disse: "Tenho uma coisa para te contar."
Não deve haver frase mais desagradável de ouvir do que esta. Há grandes hipóteses de a coisa que nos vão contar, seja ela qual for, se revelar constrangedora, e que nos seja sugerido que outras pessoas tiveram de suportar esse constrangimento, enquanto nós vivíamos numa feliz ignorância.


Alice Munro, Face em Demasiada Felicidade
Rebocando-o pouco a pouco, arrastou-o até à beira-mar, tomou o corpo vestido de branco nos braços e, estendendo-o na areia, fitou-lhe a cara cheia de espuma, na qual a morte estava já instalada, a sangrar por uma ferida enorme na garganta. De que adiantaria a respiração artificial se a cada convulsão a ferida parecia que se abria um pouco mais, e era como uma boca repugnante que chamava Marini, que o arrancava à sua pequena felicidade de tão poucas horas na ilha, gritando-lhe em jorros algo que ele já não era capaz de ouvir. Os filhos de Klaios acorriam já a toda a velocidade, seguidos mais atrás pelas mulheres. Quando Klaios chegou, os rapazes cercavam o corpo estendido na areia, sem compreender como é que ele tinha tido forças para nadar até à costa e arrastar-se até ali enquanto se esvaía. 
- Fecha-lhe os olhos - pediu uma das mulheres, chorando.
Klaios olhou para o mar, em busca de mais algum sobrevivente. Porém, estavam sozinhos na ilha, como sempre, e o cadáver de olhos abertos era a única coisa nova entre eles e o mar.


Julio Cortázar, A Ilha ao Meio Dia em Todos os Fogos o Fogo