Me and Earl and The Dying Girl, Alfonso Gomez-Rejon, 2015
fim-de-semana
Fim-de-semana nos arredores
onde quer que se enconte a luz, aquele domingo de Maio
a ouvir os sinos de Mafra. No escuro eu já caminhava
para ti? A cada manhã posso dizer: ainda se mexem
os dias, tenho um préstimo para estes braços.
No pequeno café onde calha
trazes uma razão agarrada, guardas o meu movimento
em ti como nun mapa. A Califórnia toda enfeitada
no lustro das fotografias, os lagos frios de Lausana
e Genebra: o que interessa isso agora?
Descascas uma laranja para mim. Com a música alto
levamos livros e cigarros para a cama, os estores
estão corridos desde o princípio da tarde.
Rui Pires Cabral
onde quer que se enconte a luz, aquele domingo de Maio
a ouvir os sinos de Mafra. No escuro eu já caminhava
para ti? A cada manhã posso dizer: ainda se mexem
os dias, tenho um préstimo para estes braços.
No pequeno café onde calha
trazes uma razão agarrada, guardas o meu movimento
em ti como nun mapa. A Califórnia toda enfeitada
no lustro das fotografias, os lagos frios de Lausana
e Genebra: o que interessa isso agora?
Descascas uma laranja para mim. Com a música alto
levamos livros e cigarros para a cama, os estores
estão corridos desde o princípio da tarde.
Rui Pires Cabral
Há homens que ficam na História por um único acto notável. Muitos que dão todos os dias lições de coragem e honradez e não ganham renome por isso nem serão nunca recordados como exemplos para a posteridade. Mas há alguns, mais raros, que vivem a sua vida como se tivessem nascido para contá-la, de preferência num poema épico, cheio de estrépito e fulgor, e destes sempre se dirá que são homens de outra raça, outra têmpera, e os seus erros, ainda que deixem atrás de si um rasto de consequências, não os tornam mais imputáveis do que a esfinge.
Teresa Veiga, Uma aventura secreta do Marquês de Bradomín
Teresa Veiga, Uma aventura secreta do Marquês de Bradomín
ocultai-me
Levai-me numa caravela,
Numa antiga e amena caravela,
Na proa, ou se quiserem, na espuma,
E abandonai-me, lá longe, longe.
Na união a um outro tempo.
No veludo ilusório da neve.
No bafo de alguns cães à volta.
Na extenuada turba das folhas mortas.
Levai-me sem me quebrar, nos beijos,
Nos peitos que se solevam e respiram,
Nos tapetes das palmas das mãos, no sorriso,
Nos renques das articulações e dos ossos longos.
Levai-me, ou antes: ocultai-me, ocultai-me.
Henri Michaux
in memoriam
Comovem-me ainda os dias que se levantam
no deserto das nossas vidas.
Dos belos palácios da saudade
não resta a impressão dos dedos nas colunas
fendidas, e nada cresce nos pátios.
Muito além, depois das casas, o último
marinheiro continua sentado.
Os seus cabelos são brancos, pouco a pouco.
Aqui, tudo se resume a algumas tâmaras que
secaram ao sol,
longe do orvalho,
das fontes que pareciam nascer de um olhar
turvo sobre a sede da terra.
Comovem-me ainda as palavras que dizias
aos meus ouvidos aprisionados pela música.
Comovem-me as cadeiras vazias, no pátio.
Lembro-me sempre de ti.
José Agostinho Baptista
no deserto das nossas vidas.
Dos belos palácios da saudade
não resta a impressão dos dedos nas colunas
fendidas, e nada cresce nos pátios.
Muito além, depois das casas, o último
marinheiro continua sentado.
Os seus cabelos são brancos, pouco a pouco.
Aqui, tudo se resume a algumas tâmaras que
secaram ao sol,
longe do orvalho,
das fontes que pareciam nascer de um olhar
turvo sobre a sede da terra.
Comovem-me ainda as palavras que dizias
aos meus ouvidos aprisionados pela música.
Comovem-me as cadeiras vazias, no pátio.
Lembro-me sempre de ti.
José Agostinho Baptista
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